sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Para que serve a educação? A resposta de um índio guarani


Resultado de imagem para indigenas desenhoVou seguir escrevendo sobre o aprendizado que venho tendo com os indígenas recentemente. Os povos indígenas do Brasil, na minha opiniã, tem ideias e concepções que são pouco disseminadas entre nós que vivemos na cidade .Mas é claro que Geoiarinha está aqui para ajudar nessa tarefa em entender melhor as ideias indígenas.
A pergunta do título do post foi dada por Carlos Papá, um pajé e cineasta da aldeia Guarani Mbya. Ele mesmo, numa palestra, fez essa pergunta e respondeu:
A EDUCAÇÃO SERVE PARA PROTEGER O SEU PRÓPRIO SER

Escrevi em letras garrafais e em negrito porque achei sensacional essa resposta, simples e direta. Segundo esse índio, os indígenas estão sempre buscando novas formas de entendimento e ele tem plena clareza que ele não sabe nada. Ele acredita que as gerações seguintes vão sempre conhecer mais que ele

Não são incríveis essas definições? Eu já escutei de pessoas adultas que trabalham muitas horas me perguntar se vale a pena estudar. Ter essa dúvida já é um sinal que as sinapses estão acontecendo no cérebro, ter dúvida é importante. O problema maior está em ter certeza, quando alguém tem a certeza que não vale a pena estudar, aí aconteceu a necrose das sinapses e nesse caso o ser pode ter morrido mesmo estando vivo. Ou então ter a certeza que só uma única e definitiva decisão, basta. Muita gente só enxerga apenas um único caminho.

Resultado de imagem para decisões desenhoA educação passa pelo estudar e isso não é a certeza de sucesso, de emprego bom, de salário alto, mas o teu cérebro vai fazer mais conexões e as relações que estabelecemos com as pessoas e com o mundo se ampliam. As decisões, quando se incorpora esse conceito de educação, tendem a ser mais assertivas, ou seja, a pessoa tende a ser mais confiante e mais segura de si. Ser mais confiante e mais seguro de si mesmo não é ter a certeza na forma binária de certo ou errado, mas tem muito mais a ver com a segurança da tomada de decisão sem sentimento de culpa.

Quantas vezes em muitas decisões da minha  vida eu escutei frases do tipo: "oh, mas você vai fazer tal coisa dessa maneira?" Eu costumo responder quando eu tenho muita clareza da situação, sim estou segura da minha decisão ou que não significa que eu tenha certeza. Estou longe de ser a pessoa mais segura do mundo nas minhas decisões, eu tenho dúvidas, eu me questiono, mas principalmente eu me permito escutar diferentes posicionamentos para pensar melhor sobre as decisões que aparecem na vida. E se por acaso eu tiver tomado uma decisão que não foi tão boa quanto eu esperava, tudo bem, sempre é possível consertar e recalcular a rota a ser seguida. Sabe aquela voz do google maps de quando você erra o caminho e ele fala: "recalculando", acho que é assim que eu me sinto sempre....recalculando sempre a minha rota.
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Por isso que eu acho que os índios são muito sábios e tem uma compreensão de mundo muito plural, dinâmica e simples. Os índios que estou conhecendo estão me surpreendendo com tamanha genialidade e simplicidade e na medida do possível vou trazendo aqui para reflexão.

domingo, 3 de novembro de 2019

É preciso sair da aldeia para conhecer a aldeia!

Eu estava no Japão na última vez que escrevi e desde que voltei ao Brasil, minha vida foi tão intensa com muitos compromissos acadêmicos e profissionais que fui abduzida pela retomada da minha rotina em São Paulo. Toda vez que entro na avenida 23 de Maio ou entro no metrô em São Paulo, sinto que voltei para a corrente sanguínea dessa megacidade. Uma das melhores sensações de voltar para casa é ver no bilhete de embarque e no painel do aeroporto as três letrinhas GRU, voltar para minha cidade, minha pequena aldeia, é e sempre será uma alegria imensa.

Depois de morar 1 ano no Japão, fiquei bastante reflexiva pensando e repensando sobre o Brasil e com certeza de ter tido um aprendizado no Japão que se tornou um divisor de águas na minha vida. O mais legal é que muitas pessoas aqui no Brasil quando me perguntavam como tinha sido a experiência no Japão, tinham a expectativa de que eu fosse falar mil maravilhas como se lá fosse o verdadeiro paraíso. Eu acabo decepcionando muito as pessoas sobre essa ilusão que vendem aqui de país desenvolvido, em especial obviamente sobre o Japão. Deixo bem claro o quanto eu amo o Japão e o quanto esse país me ensinou, mas digamos que meu amor amadureceu e agora tenho uma visão pautada em experiências que eu vivi e senti, boas e ruins. Os chineses são sábios em entender as relações de Yin e Yang, a nossa vida é assim.


Resultado de imagem para o invasor americanoHoje assistindo o documentário de 2015 do Michael Moore "O invasor americano" fiquei mais feliz de ver que existem pessoas que saem da sua aldeia para poder conhecer melhor a aldeia. Basicamente, o diretor visita diversos países atrás das melhores ideias para levar para os Estados Unidos porque esse país tem muitos problemas. Sobre o Japão, para sair do visão romântica é assistir "Assunto de família" de 2018 , filme japonês que ganhou prêmio ano passado.


Se não é possível conhecer todos os países in loco, uma maneira de fazê-lo é pela arte, pelo cinema. Há diversos filmes e desenhos disponíveis que permitem às pessoas ampliarem sua visão de mundo. O acesso a diversos filmes pelas diversas plataformas existentes hoje deveriam servir como um meio de acesso para a construção de esclarecimento,  discernimento,  crítica e portanto conhecimento.

Não é possível que em pleno século XXI ainda tenham pessoas com a mentalidade do período feudal. Eu definitivamente tenho muita dificuldade de entender pessoas que pensam de maneira tão retrógrada. Eu me pergunto sempre, para que serve ter um iPhone e internet de alta velocidade se você não consegue enxergar o óbvio da sua vida, do seu dia-a-dia? Qual o sentido que te motiva acordar cedo e trabalhar?

Resultado de imagem para ailton krenakMe empolguei em escrever esse post porque conheci recentemente Ailton Krenak, um índio e ativista da causa indígena com uma capacidade de discernimento, crítica e conhecimento impressionantes. Se vocês puderem assistir os vídeos dele no youtube, assistam. Foi ele que me influenciou para o título desse post. Um índio que conhece muito bem a sua própria aldeia, mas que devorou no sentido de adquirir conhecimento tudo o que está fora da aldeia. Na palestra dele, dentre tantas coisas, a que mais me chamou a atenção é ele dizer: "por que vocês tem tanta dificuldade em enxergar o óbvio?"


Resultado de imagem para interrogaçõesEssa pergunta é linda e aí eu penso sobre por que muitos brasileiros aceitam tantas coisas erradas no Japão? Por que muitos aceitam como normal a opressão, os xingamentos, os assédios? Por que os brasileiros se sentem tão inferiores no exterior? Por que o brasileiro odeia tanto seu próprio país? Por que o brasileiro, mesmo aqui no Brasil, não se enxerga enquanto ser humano que precisa de um mínimo de dignidade? Por que o brasileiro acha que só ter pensamento positivo, as coisas vão mudar na prática?


Eu posso sair da minha aldeia quantas vezes eu quiser, mas a aldeia nunca vai sair de mim. A esperança é que o conhecimento se construa para que seja possível se enxergar na aldeia e principalmente aprender o que há de bom e de ruim fora dela.

Precisamos voltar a sermos mais "humanos" e usar o que a evolução trouxe de melhor para a nossa espécie, nosso cérebro. Qualquer tentativa de manipulação que limitem a capacidade de pensar a complexidade da vida, das pessoas e dos países é uma afronta a evolução.

#conheçasualdeiaesejaglobal

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Geoiarinha se despede do Japão!

Namba - Osaka
Depois de uma experiência sensacional de 11 meses no Japão, voltei ao Brasil com uma bagagem de aprendizado sem limite de peso que eu jamais vou esquecer.
Nos meus últimos 40 dias de Japão, visitei lugares incríveis, mas me estressei bastante também. Eu amo o Japão na mesma intensidade que eu odeio. 
Já dizia a música La Mar  da banda The beatiful girls que "Only love can be both heaven and hell", é o meu amor pelo Japão, o paraíso e o inferno não necessariamente na mesma ordem. Faço questão de deixar muito claro aqui que não consigo ver apenas o lado bom das coisas como muita gente faz, assim como também não consigo ver apenas o lado ruim. O bom e o ruim coexistem na nossa vida, ignorar um em favorecimento de outro seria muita ingenuidade.

Volto ao Brasil com a experiência de ter vivido num país "desenvolvido" que me ensinou muito além do que eu imaginava poder aprender em livros ou artigos. Sem dúvida morar em outro país traz um aprendizado imenso, mas o melhor é poder descobrir que onde eu nasci e cresci e minhas origens me ensinaram a ser quem sou hoje. Posso morar em Marte, Júpter, Saturno que não deixarei de ser quem eu sou. O Japão não é um planeta, mas é como se fosse, pois além de ser bem longe é difícil de entender, tudo alí é muito diferente de diversos países.

Meu combo favorito no Doutor

Agradeci, agradeço e vou agradecer sempre a todos que cruzaram meu caminho no Japão, todos em diferentes intensidades foram fundamentais no meu aprendizado: ARIGATO! Não consegui me despedir de todos no Japão, mas espero encontrá-los novamente de preferência no Brasil.

Nos últimos dias de Japão me despedi de coisas que gosto muito. Adoro comer um dos combos de café da manhã do Doutor Café porque sempre toca bossa nova, sempre. Não teve uma vez que eu entrei nesse café e não escutei minha língua portuguesa tão linda e suave, sempre me sentia mais tranquila e apaixonada pelo Japão. Tem muitos japoneses que amam Bossa Nova. Minha rede de combini favorita é a Mini Stop também porque eles tocam Bossa Nova nas lojas, várias vezes escutei.

Descobri no fim da viagem que minha cidade japonesa favorita é Nagoya na foto ao lado, é a mais cosmopolita e a que nunca tive um problema de comunicação porque tem muitos estrangeiros. As bibliotecas de Nagoya são as melhores e a da Universidade de Nagoya em especial é a melhor biblioteca que eu ja tive a oportunidade de frequentar milhares de vezes. O museu de trens em Nagoya também conquistou meu coração, fiquei super encantada com a história do transporte ferroviário no Japão com direito a entrar num simulador de shinkansen.
Por falar nele, sentirei falta do Shinkansen sem a menor sombra de dúvidas. Fazendo uma conta, ao todo deu 30 viagens de shinkansen somando o que fiz 4 anos atrás com essa vez. Obrigada Japão por oferecer o JR Pass para os turistas, isso sem dúvida é uma das melhores coisas para se aproveitar no Japão. Acho mais fácil conhecer o Japão como turista do que com visto de trabalho ou visto permanente, acho que não acho....tenho certeza!


Volto apaixonada e encantada pela história do Japão do período EDO, o museu Edo em Tokyo me deixou super feliz, o melhor museu do Japão na minha opinião e por incrível que possa parecer o museu da cidade de Yokkaichi que é grátis, é maravilhoso também e retrata parte do período EDO.

Sentirei falta dos Onsens no Japão e aliás aproveito para indicar aqui o melhor de todos os onsens que já visitei, está aqui em Osaka e se chama SPA WORLD, milhares de piscinas termais e para minha surpresa a mais legal de todas as piscinas se chama ESPANHA. Cada piscina tem um nome de um país europeu e a cascata da Espanha me conquistou! Não pode entrar com tatuagem, mas cobri a minha do ombro com uma toalha do próprio spa e sempre tomava o cuidado de não deixá-la exposta para não ofender as japonesas, uma japonesa que conheci no Havaí me deu essa dica para a tatoo. Fica aqui o link desse lugar incrível http://www.spaworld.co.jp/english/

Em Tokyo fui atrás de um bairro muito pobre que no passado se chamava Sanya, mas não encontrei nada que classificasse como pobre, mas descobri uma escultura de um poeta viajante japonês que se chama Basho Matsuo que foi super conhecido no período Edo, adorei esse poeta. Claro que a estátua estava com o escrito em japonês sem nenhuma tradução, mas nada como ter um grande amigo japonês para me socorrer e me ensinar mais a fundo sobre esse país! Obrigada Hajime por tudo, estar no Japão contando com o resgate constante de um amigo japonês cosmopolita, não tem preço.

Favela em Haginochaya-minami Park

Agora em Osaka, sem dúvida Kamagasaki é um estudo de caso particular, percorri o bairro várias vezes e me sentei na praça do Haginochaya- minami Park tentando compreender a pobreza do local. Na minha última visita, fiquei ali sentada na praça e parou um carro suspeito e uns caras esquisitos que falaram alguma coisa pra mim, mas como eu não entendo japonês...achei que era melhor sair de fininho, fiquei com medo de me seguirem. 

Mês passado nessa mesma praça, uma mulher me convidou para entrar num carro...sabe-se lá pra onde. Não recomendo para as pessoas irem nesse lugar, é super diferente de todo o Japão, mas eu adoro passear alí e se você chegar às 11h dá para almoçar com os locais. E à noite nesse lugar é super diferente, muitos moradores de rua, muitos, muitos...me senti em Mumbai na Índia que durante o dia não tem os moradores de rua, mas à noite eles ocupam os seu lugares. Não estou inventando é verdade, na frente do hotel Shin-Imamiya tem pessoas dormindo na rua do outro lado da calçada no minuto que escrevi esse post.
Vista do Shin-Imamiya hotel em Osaka
Para quem fica no Japão eu desejo o melhor de todas as energias positivas para realizar suas conquistas e desafios nesse país que não é fácil, ser imigrante no Japão é super difícil, só vivendo para sentir na pele. Lutem para fazer sempre o melhor que vocês puderem e não abaixem a cabeça para os japoneses que propuserem fazer o errado, essa é a minha mensagem para os brasileiros que vivem no Japão. Fiquei muito feliz de ter conhecido um brasileiro que trabalha num sindicato de uma fábrica japonesa e que luta diariamente para que as condições sejam melhores para os estrangeiros, fiquei tão feliz de saber que existem esses brasileiros no Japão. Conheci pessoas que lutam contra o bullying a estrangeiros nas escolas japonesas, um desafio imenso aqui para quem é estrangeiro no Japão. 
Mas a realidade e o fato é que muitos brasileiros aceitam serem submissos só pelo fato de estarem no Japão e terem a falsa sensação de viver num "país desenvolvido", mantém um falso "status quo" de felicidade e perfeição...mas no fundo sofrem muito e o sinal mais comum é a depressão. Eu aprendi que a pior coisa que existe é você enganar a sí próprio e lá no Japão conheci vários que enganam a sí mesmo. Mas conheci muitos que lutam dia e noite para fazer das suas vidas e do seu meio um lugar melhor para se viver, é de se emocionar!

Uma coisa que aprendi no Japão: ter trabalho, dinheiro, iphone, carro, casa não deixam os brasileiros mais felizes no Japão, muito pelo contrário. Tem muitos brasileiros que por falta de estudo e aprendizado constante carregam na alma o complexo de vira-lata, é muito triste isso. Minhas aulas in loco no Japão acabaram, mas sigo no Brasil refletindo sobre tudo isso que vivi.


Para terminar deixo uma frase de um site super legal que gosto de ler http://www.japansubculture.com/
Conquer anger with compassion.
Conquer evil with goodness.
Conquer trolls with humour & sarcasm
Conquer ignorance with knowledge
Conquer stinginess with generosity. 
Conquer lies with truth

Traduzindo:
Conquiste a raiva com compaixão. 
Conquiste o mal com bondade. 
Conquiste "trolls" com humor e sarcasmo 
Conquiste a ignorância com conhecimento 
Conquiste a mesquinhez com generosidade. 
Conquistar a mentira com a verdade

 Obrigada Japão, Arigato Nihon!


O mundo é um constante aprendizado que não tem fórmulas ou regras definidas, mas uma coisa é certa, o meu amor pelo conhecimento é renovado a cada dia. Obrigada leitores, tentei compartilhar minhas percepções pessoais baseadas na minha vivência no Japão e de conhecimentos de outras culturas ao redor do mundo.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Ainda sobre a sombra e exemplos doloridos 1, 2 e 3 no Japão

Saudações da ilha de Kyushu. Estava na última estação de trem bala no extremo Sul do Japão. Amo andar de trem e  o shinkansen é particularmente especial, vocês não fazem ideia de como fico feliz de percorrer as cidades japonesas de trem bala. Pensa numa criança que fica feliz com o novo brinquedo....sou eu com o meu bilhetinho de shinkansen. Essa foto abaixo é de Beppu que amei conhecer.


O fato é que passeando aqui no Japão hora procurando fumacinhas que saem do chão em Beppu, hora andando de bicicleta ao redor do vulcão ativo Sakurajima, hora refletindo quando estou num onsen de pé...não consigo parar de pensar no Peter Schlemihl e na sua história maravilhosa. Então eu, eu mesma e minha sombra decidimos continuar as reflexões do livro, espero que vocês não se importem!

No final do livro tem um posfácio escrito por Thomas Mann que é um baita escritor alemão que ganhou o nobel de Literatura em 1929 (só isso e outros prêmios) e vou dividir com vocês  alguns trechos que ele analisa do livro:
"jamais poeta algum soube, de maneira tão singela, verdadeira, sensível, pessoal, representar uma tal existência e trazê-la para tão perto de nossos sentimentos."
Deve ser por isso que não consigo parar de pensar nessa história. Thomas Mann continua:
 "O decisivo nisso tudo é que o poeta conseguiu enredarnos tão completamente à concepção do valor e da sua importância de uma sombra saudável para a honradez de uma pessoa, que deixamos de sentir exagero em expressões como "segredo sombrio", mas muito pelo contrário, enxergamos um homem sem sombra o mais derrotado, o mais repugnante ser sob o Sol."
Muito verdade essa fala do Thomas Mann, fiquei arrasada todas as vezes que lia as situações  em que o Peter Schlemihl se frustrava com o desprezo, com a exclusão quando as pessoas da sociedade percebiam a ausência da sombra dele. E o Thomas Mann fala: "Seu arrependimento por causa daquele negócio é infinito" e aí ele traz uma situação muito legal que acontece no livro que o Peter Schlemihl encontra um pintor e pede para ele desenhar uma sombra artificial. Adoro essa parte, como se fosse fácil pintar uma sombra, mas é incrivelmente engraçado esse trecho. O pintor fala: "Quem não tem sombra, que não saia ao Sol, essa é a coisa mais sensata e segura".
Vou dar três exemplos que eu vivenciei super dolorido de escutar sendo eu brasileira sobre os brasileiros que vivem no Japão.

Exemplo dolorido 1: Estava eu numa festa de confraternização de pessoas que estudam e falam espanhol em Nagoya a convite de uma amiga espanhola e de uma amiga japonesa, pessoas muito queridas que fui me despedir. Nessa festa conheci mutos estrangeiros e muitos japoneses que estudam espanhol. Aliás tinha uma japonesa de 66 anos que falava super bem o espanhol, elegante, com uma pele que parecia ter 30 anos...ela é dermatologista famosa que dá até entrevista na TV japonesa. Fiquei impressionada com ela, ela teve que sair mais cedo do evento porque tinha outro encontro em Tokyo e tinha que pegar o shinkansen! Que chiquérrima, alegre, simpática e plena: japonesa que fala mais de um idioma e com uma aparência absurdamente jovial, super bem resolvida. Não é todo dia que se encontra japonesas assim e que ainda me revelou os segredos dessa jovialidade toda pelo simples fato de que ela fala espanhol!
A parte dolorida vem agora, conversei também com um japonês super descolado que também falava inglês e espanhol. Depois de um tempo conversando vem sempre aquela pergunta de onde você é e quando eu falei que era brasileira ele se assustou comigo. Ele não entendia porque eu falava espanhol e inglês e ainda por cima era brasileira. Ele queria muito entender por que eu falava inglês e espanhol. Daí eu falei: "Por que? Porque eu estudei esses idiomas." Ainda falei que estudo doutorado no Brasil e que ensinava português no Japão. Aí ele se assustou mais ainda, o japonês virou pra mim SUPER impressionado e disse: "Você é uma brasileira diferente dos que eu conheço aqui, não conheço brasileiros como você"  e eu atenta tentando entender a surpresa dele e o japonês continuou exatamente nesses termos: "Os brasileiros que eu conheço aqui no Japão são burros". Ele usou exatamente esse termo em espanhol que é o mesmo em português.
Respirei fundo ao escutar essa frase, respira fundo você também leitor, fique a vontade se quiser tomar uma água ou um café antes de seguir lendo. Quando o japonês falou exatamente essa frase eu fiquei tão chateada, mas tão chateada a ponto de ficar com uma tristeza enorme dentro de mim por ele ter falado isso do meu povo.  Eu sou brasileira, não gosto que falem mal de nós da maneira como tive que escutar. Mas o interessante é que na percepção do japonês ficou muito claro que os brasileiros que ele conhece aqui no Japão não estudaram e não estudam. Infelizmente a grande maioria dos brasileiros no universo das fábricas no Japão, deixaram os estudos de lado, ou começaram e desistiram, ou estudaram algo que não gostaram e optaram pelas fábricas japonesas nos dias de hoje ainda. A "bolsa mágica" do Japão é fantástica, é assim que muitos pensam.
Reflexão: Nessa parte do estudar, infelizmente muitos brasileiros atualmente no Japão consideram desnecessário estudar e sempre vão ter um bom argumento para justificar o "não estudar". Os argumentos são ótimos e super convincentes, eles são bem articulados em geral e falam: "temos que fazer "zanguio" não dá" (zanguio é hora extra, muitas vezes 4 horas extras por dia porque paga mais), "tenho que pagar a prestação da casa", "tenho que pagar as contas". Comprei tal coisa e estou pagando. A desculpa sempre são: o dinheiro e as contas. É essa desculpa que permite esse japonês falar o que falou e digo mais, muitos japoneses tem exatamente essa visão sobre os brasileiros, de que os brasileiros são burros. Já escutei outros japoneses falando isso nesses meus 10 meses de Japão.
É preciso entender que se hoje os descendentes de japoneses são bem vistos no Brasil e super inseridos na sociedade brasileira foi porque os descendentes aprenderam o português. Desconheço japoneses bem sucedidos no Brasil que não aprenderam o português. Então o que precisa para os brasileiros que optaram por ficar no Japão terem uma visão diferente para os japoneses? ESTUDAR O IDIOMA JAPONÊS. Sem dominar o japonês, infelizmente terei que concordar com muita dor no coração com a fala do japonês acima. É preciso colocar os japoneses no lugar deles no idioma deles, será que vocês me entendem? São 30 anos de história de brasileiros no Japão, será que vamos  ter que esperar 80 anos para os brasileiros entenderem isso?
Vamos ao próximo exemplo. Agora escrevo da minha poltrona do shinkansen saindo de Kagoshima e rumo a Tokyo. Não consegui reservar assento, mas por sorte como Kagoshima é a última estação consegui um lugar na janelinha! Adoro viajar na janela! Até chegar em Osaka eu espero publicar esse post, sigamos com os outros exemplos.
Exemplo dolorido 2: Eu nunca vou esquecer de duas frases que escutei aqui no Japão de amigos muito queridos que me ajudaram demais aqui:
Frase 1: "Iara, sabe o que eu mais queria aprender mesmo? Você não vai acreditar. Eu queria aprender o português!"
Frase 2: "Iara, eu passo em todas as provas de teste, mas não consigo escrever uma redação e passar na prova."
Reflexão: Essas duas frases me tocaram e me doeram demais, nunca vou esquecer disso. Fico até emocionada quando lembro! Tá vendo como a questão da sombra sempre vai esbarrar na linguagem e no modo de se expressar seja de maneira falada ou de maneira escrita. É muito dolorido ver pessoas queridas sem a sombra, sem estudo. Eles sentem uma tristeza por isso, é visível. Eles e muitos outros exemplos são parecidos, muitos que gostariam de ter estudado mas o trabalho nas fábricas não deixa essas pessoas terem sombra. A sombra ainda dá para recuperar porque nunca é tarde para voltar a estudar. Mas se insistirem na "bolsa mágica" por mais tempo, pode ser que a alma já tenha sido comprada pelas fábricas. Detalhe, eu fiz um intensivo de redação para a pessoa da frase 2 mas ainda não sabemos o resultado, mas independente do resultado foi uma alegria muito grande poder ajudar mesmo que em pouco tempo uma pessoa a escrever uma redação.

Exemplo 3: Uma jovem super inteligente, esforçada, dedicada falou assim nesses termos:
"Mas meus pais falaram que não vale a pena estudar. Eles estudaram faculdade e não deu certo, estão aqui nas fábricas trabalhando." Quase tive uma parada cardíaca quando escutei essa frase leitores, sério! É preciso muita calma nessa hora quando se adentra o universo das pessoas que estão iludidas pela "bolsa mágica" e quando é uma jovem com uma sombra linda, com uma inteligência escancarada falando isso, eu sinto que sofro um terremoto dentro de mim, balança tudo dentro de mim. Aí eu tenho que parar e esperar esse terremoto passar e aí eu perguntei:
"O que seus pais estudaram? Qual faculdade?" Essa jovem super inteligente  não sabia me responder essa pergunta simples. Provavelmente os pais não estudaram, não tem sombra, mas tem uma filha muito inteligente que até eles devem se assustar e para ofuscar o brilho dessa linda sombra, falam que não vale a pena estudar.
Reflexão:  Os brasileiros que tem filhos no Japão querem muito que eles estudem e muitos não desejam para seus filhos o trabalho nas fábricas. Mas é doloroso escutar de filhos, me contando, que os pais falaram que não valeria a pena estudar. Aí dói demais na minha alma. Quando eu vejo jovens deixando de estudar e trabalhando nas fábricas,  eu enxergo o Peter Schlemihl que não viu nenhum problema em vender sua sombra pela "bolsa mágica". A bolsa mágica no Japão permite que muitos jovens comprem moto, carro, celulares, computadores! É impressionante ver como eles conseguiram comprar tantas coisas, mas alguns até dizem: "mas vou juntar um dinheiro para voltar ao Brasil e estudar". Mas os anos vão se passando, vão se passando e acontece que  muitos vão assinar o documento que o Peter Schlemihl se recusou a assinar. Ele mesmo diz que espera que seu ensinamento  seja útil para alguns habitantes e diz: "Mas você, meu amigo, se deseja viver entre os homens, aprenda a respeitar em primeiro lugar a sombra (...) Mas, se quiser viver para si e para o que há de melhor em seu interior, então não precisa de nenhum conselho."
Em outras palavras o Peter Schlemihl está dizendo, se você continuar fechado no seu universo, você não precisa de nenhum conselho. Há um universo paralelo de brasileiros no Japão que não conseguem enxergar além do ambiente de fábrica, estão presos. Há os que saíram das fábricas fisicamente mas o ambiente das fábricas não saíram das pessoas e mesmo que trabalhem "com o ensino", por exemplo, reproduzem o mesmo ar das fábricas e esse ar eu pude respirar e vivenciar durante um certo tempo no Japão. Antes que esse ar pudesse me contaminar, vocês não fazem ideia o que é respirar esse ar, eu, eu mesma e minha sombra decidimos largar esse ambiente tóxico e partir para vivenciar outras experiências incríveis de educação que o Japão tem a oferecer, mas só quem tem sombra vai me compreender.
Observações:
1. Serei muito grata ao Japão e as pessoas que me convidaram para aprender como é essa realidade, esse foi o argumento que me convenceu a vir ao Japão. Eu realmente aprendi muito!
2. Os exemplos doloridos não acabaram e acho que até eu deixar esse livrinho tão inspirador no dia da minha partida, eu vou ficar falando da sombra e do Peter Schlemihl....hehehe
3. Obrigada se você leu todos esses posts, arigato!
4. No post anterior na placa em Beppu estava escrito "ao Beppu", consultei duas amigas, uma tradutora e uma linguista e assim como existe Bem-vindo ao Rio de Janeiro, pode ser que Beppu seja o equivalente ao Rio de Janeiro e por acaso a cidade e os morros me fizeram realmente me lembrar do Rio de Janeiro.