domingo, 10 de fevereiro de 2019

Geoiarinha se despede do Japão!

Namba - Osaka
Depois de uma experiência sensacional de 11 meses no Japão, voltei ao Brasil com uma bagagem de aprendizado sem limite de peso que eu jamais vou esquecer.
Nos meus últimos 40 dias de Japão, visitei lugares incríveis, mas me estressei bastante também. Eu amo o Japão na mesma intensidade que eu odeio. 
Já dizia a música La Mar  da banda The beatiful girls que "Only love can be both heaven and hell", é o meu amor pelo Japão, o paraíso e o inferno não necessariamente na mesma ordem. Faço questão de deixar muito claro aqui que não consigo ver apenas o lado bom das coisas como muita gente faz, assim como também não consigo ver apenas o lado ruim. O bom e o ruim coexistem na nossa vida, ignorar um em favorecimento de outro seria muita ingenuidade.

Volto ao Brasil com a experiência de ter vivido num país "desenvolvido" que me ensinou muito além do que eu imaginava poder aprender em livros ou artigos. Sem dúvida morar em outro país traz um aprendizado imenso, mas o melhor é poder descobrir que onde eu nasci e cresci e minhas origens me ensinaram a ser quem sou hoje. Posso morar em Marte, Júpter, Saturno que não deixarei de ser quem eu sou. O Japão não é um planeta, mas é como se fosse, pois além de ser bem longe é difícil de entender, tudo alí é muito diferente de diversos países.

Meu combo favorito no Doutor

Agradeci, agradeço e vou agradecer sempre a todos que cruzaram meu caminho no Japão, todos em diferentes intensidades foram fundamentais no meu aprendizado: ARIGATO! Não consegui me despedir de todos no Japão, mas espero encontrá-los novamente de preferência no Brasil.

Nos últimos dias de Japão me despedi de coisas que gosto muito. Adoro comer um dos combos de café da manhã do Doutor Café porque sempre toca bossa nova, sempre. Não teve uma vez que eu entrei nesse café e não escutei minha língua portuguesa tão linda e suave, sempre me sentia mais tranquila e apaixonada pelo Japão. Tem muitos japoneses que amam Bossa Nova. Minha rede de combini favorita é a Mini Stop também porque eles tocam Bossa Nova nas lojas, várias vezes escutei.

Descobri no fim da viagem que minha cidade japonesa favorita é Nagoya na foto ao lado, é a mais cosmopolita e a que nunca tive um problema de comunicação porque tem muitos estrangeiros. As bibliotecas de Nagoya são as melhores e a da Universidade de Nagoya em especial é a melhor biblioteca que eu ja tive a oportunidade de frequentar milhares de vezes. O museu de trens em Nagoya também conquistou meu coração, fiquei super encantada com a história do transporte ferroviário no Japão com direito a entrar num simulador de shinkansen.
Por falar nele, sentirei falta do Shinkansen sem a menor sombra de dúvidas. Fazendo uma conta, ao todo deu 30 viagens de shinkansen somando o que fiz 4 anos atrás com essa vez. Obrigada Japão por oferecer o JR Pass para os turistas, isso sem dúvida é uma das melhores coisas para se aproveitar no Japão. Acho mais fácil conhecer o Japão como turista do que com visto de trabalho ou visto permanente, acho que não acho....tenho certeza!


Volto apaixonada e encantada pela história do Japão do período EDO, o museu Edo em Tokyo me deixou super feliz, o melhor museu do Japão na minha opinião e por incrível que possa parecer o museu da cidade de Yokkaichi que é grátis, é maravilhoso também e retrata parte do período EDO.

Sentirei falta dos Onsens no Japão e aliás aproveito para indicar aqui o melhor de todos os onsens que já visitei, está aqui em Osaka e se chama SPA WORLD, milhares de piscinas termais e para minha surpresa a mais legal de todas as piscinas se chama ESPANHA. Cada piscina tem um nome de um país europeu e a cascata da Espanha me conquistou! Não pode entrar com tatuagem, mas cobri a minha do ombro com uma toalha do próprio spa e sempre tomava o cuidado de não deixá-la exposta para não ofender as japonesas, uma japonesa que conheci no Havaí me deu essa dica para a tatoo. Fica aqui o link desse lugar incrível http://www.spaworld.co.jp/english/

Em Tokyo fui atrás de um bairro muito pobre que no passado se chamava Sanya, mas não encontrei nada que classificasse como pobre, mas descobri uma escultura de um poeta viajante japonês que se chama Basho Matsuo que foi super conhecido no período Edo, adorei esse poeta. Claro que a estátua estava com o escrito em japonês sem nenhuma tradução, mas nada como ter um grande amigo japonês para me socorrer e me ensinar mais a fundo sobre esse país! Obrigada Hajime por tudo, estar no Japão contando com o resgate constante de um amigo japonês cosmopolita, não tem preço.

Favela em Haginochaya-minami Park

Agora em Osaka, sem dúvida Kamagasaki é um estudo de caso particular, percorri o bairro várias vezes e me sentei na praça do Haginochaya- minami Park tentando compreender a pobreza do local. Na minha última visita, fiquei ali sentada na praça e parou um carro suspeito e uns caras esquisitos que falaram alguma coisa pra mim, mas como eu não entendo japonês...achei que era melhor sair de fininho, fiquei com medo de me seguirem. 

Mês passado nessa mesma praça, uma mulher me convidou para entrar num carro...sabe-se lá pra onde. Não recomendo para as pessoas irem nesse lugar, é super diferente de todo o Japão, mas eu adoro passear alí e se você chegar às 11h dá para almoçar com os locais. E à noite nesse lugar é super diferente, muitos moradores de rua, muitos, muitos...me senti em Mumbai na Índia que durante o dia não tem os moradores de rua, mas à noite eles ocupam os seu lugares. Não estou inventando é verdade, na frente do hotel Shin-Imamiya tem pessoas dormindo na rua do outro lado da calçada no minuto que escrevi esse post.
Vista do Shin-Imamiya hotel em Osaka
Para quem fica no Japão eu desejo o melhor de todas as energias positivas para realizar suas conquistas e desafios nesse país que não é fácil, ser imigrante no Japão é super difícil, só vivendo para sentir na pele. Lutem para fazer sempre o melhor que vocês puderem e não abaixem a cabeça para os japoneses que propuserem fazer o errado, essa é a minha mensagem para os brasileiros que vivem no Japão. Fiquei muito feliz de ter conhecido um brasileiro que trabalha num sindicato de uma fábrica japonesa e que luta diariamente para que as condições sejam melhores para os estrangeiros, fiquei tão feliz de saber que existem esses brasileiros no Japão. Conheci pessoas que lutam contra o bullying a estrangeiros nas escolas japonesas, um desafio imenso aqui para quem é estrangeiro no Japão. 
Mas a realidade e o fato é que muitos brasileiros aceitam serem submissos só pelo fato de estarem no Japão e terem a falsa sensação de viver num "país desenvolvido", mantém um falso "status quo" de felicidade e perfeição...mas no fundo sofrem muito e o sinal mais comum é a depressão. Eu aprendi que a pior coisa que existe é você enganar a sí próprio e lá no Japão conheci vários que enganam a sí mesmo. Mas conheci muitos que lutam dia e noite para fazer das suas vidas e do seu meio um lugar melhor para se viver, é de se emocionar!

Uma coisa que aprendi no Japão: ter trabalho, dinheiro, iphone, carro, casa não deixam os brasileiros mais felizes no Japão, muito pelo contrário. Tem muitos brasileiros que por falta de estudo e aprendizado constante carregam na alma o complexo de vira-lata, é muito triste isso. Minhas aulas in loco no Japão acabaram, mas sigo no Brasil refletindo sobre tudo isso que vivi.


Para terminar deixo uma frase de um site super legal que gosto de ler http://www.japansubculture.com/
Conquer anger with compassion.
Conquer evil with goodness.
Conquer trolls with humour & sarcasm
Conquer ignorance with knowledge
Conquer stinginess with generosity. 
Conquer lies with truth

Traduzindo:
Conquiste a raiva com compaixão. 
Conquiste o mal com bondade. 
Conquiste "trolls" com humor e sarcasmo 
Conquiste a ignorância com conhecimento 
Conquiste a mesquinhez com generosidade. 
Conquistar a mentira com a verdade

 Obrigada Japão, Arigato Nihon!


O mundo é um constante aprendizado que não tem fórmulas ou regras definidas, mas uma coisa é certa, o meu amor pelo conhecimento é renovado a cada dia. Obrigada leitores, tentei compartilhar minhas percepções pessoais baseadas na minha vivência no Japão e de conhecimentos de outras culturas ao redor do mundo.


sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Ainda sobre a sombra e exemplos doloridos 1, 2 e 3 no Japão

Saudações da ilha de Kyushu. Estava na última estação de trem bala no extremo Sul do Japão. Amo andar de trem e  o shinkansen é particularmente especial, vocês não fazem ideia de como fico feliz de percorrer as cidades japonesas de trem bala. Pensa numa criança que fica feliz com o novo brinquedo....sou eu com o meu bilhetinho de shinkansen. Essa foto abaixo é de Beppu que amei conhecer.


O fato é que passeando aqui no Japão hora procurando fumacinhas que saem do chão em Beppu, hora andando de bicicleta ao redor do vulcão ativo Sakurajima, hora refletindo quando estou num onsen de pé...não consigo parar de pensar no Peter Schlemihl e na sua história maravilhosa. Então eu, eu mesma e minha sombra decidimos continuar as reflexões do livro, espero que vocês não se importem!

No final do livro tem um posfácio escrito por Thomas Mann que é um baita escritor alemão que ganhou o nobel de Literatura em 1929 (só isso e outros prêmios) e vou dividir com vocês  alguns trechos que ele analisa do livro:
"jamais poeta algum soube, de maneira tão singela, verdadeira, sensível, pessoal, representar uma tal existência e trazê-la para tão perto de nossos sentimentos."
Deve ser por isso que não consigo parar de pensar nessa história. Thomas Mann continua:
 "O decisivo nisso tudo é que o poeta conseguiu enredarnos tão completamente à concepção do valor e da sua importância de uma sombra saudável para a honradez de uma pessoa, que deixamos de sentir exagero em expressões como "segredo sombrio", mas muito pelo contrário, enxergamos um homem sem sombra o mais derrotado, o mais repugnante ser sob o Sol."
Muito verdade essa fala do Thomas Mann, fiquei arrasada todas as vezes que lia as situações  em que o Peter Schlemihl se frustrava com o desprezo, com a exclusão quando as pessoas da sociedade percebiam a ausência da sombra dele. E o Thomas Mann fala: "Seu arrependimento por causa daquele negócio é infinito" e aí ele traz uma situação muito legal que acontece no livro que o Peter Schlemihl encontra um pintor e pede para ele desenhar uma sombra artificial. Adoro essa parte, como se fosse fácil pintar uma sombra, mas é incrivelmente engraçado esse trecho. O pintor fala: "Quem não tem sombra, que não saia ao Sol, essa é a coisa mais sensata e segura".
Vou dar três exemplos que eu vivenciei super dolorido de escutar sendo eu brasileira sobre os brasileiros que vivem no Japão.

Exemplo dolorido 1: Estava eu numa festa de confraternização de pessoas que estudam e falam espanhol em Nagoya a convite de uma amiga espanhola e de uma amiga japonesa, pessoas muito queridas que fui me despedir. Nessa festa conheci mutos estrangeiros e muitos japoneses que estudam espanhol. Aliás tinha uma japonesa de 66 anos que falava super bem o espanhol, elegante, com uma pele que parecia ter 30 anos...ela é dermatologista famosa que dá até entrevista na TV japonesa. Fiquei impressionada com ela, ela teve que sair mais cedo do evento porque tinha outro encontro em Tokyo e tinha que pegar o shinkansen! Que chiquérrima, alegre, simpática e plena: japonesa que fala mais de um idioma e com uma aparência absurdamente jovial, super bem resolvida. Não é todo dia que se encontra japonesas assim e que ainda me revelou os segredos dessa jovialidade toda pelo simples fato de que ela fala espanhol!
A parte dolorida vem agora, conversei também com um japonês super descolado que também falava inglês e espanhol. Depois de um tempo conversando vem sempre aquela pergunta de onde você é e quando eu falei que era brasileira ele se assustou comigo. Ele não entendia porque eu falava espanhol e inglês e ainda por cima era brasileira. Ele queria muito entender por que eu falava inglês e espanhol. Daí eu falei: "Por que? Porque eu estudei esses idiomas." Ainda falei que estudo doutorado no Brasil e que ensinava português no Japão. Aí ele se assustou mais ainda, o japonês virou pra mim SUPER impressionado e disse: "Você é uma brasileira diferente dos que eu conheço aqui, não conheço brasileiros como você"  e eu atenta tentando entender a surpresa dele e o japonês continuou exatamente nesses termos: "Os brasileiros que eu conheço aqui no Japão são burros". Ele usou exatamente esse termo em espanhol que é o mesmo em português.
Respirei fundo ao escutar essa frase, respira fundo você também leitor, fique a vontade se quiser tomar uma água ou um café antes de seguir lendo. Quando o japonês falou exatamente essa frase eu fiquei tão chateada, mas tão chateada a ponto de ficar com uma tristeza enorme dentro de mim por ele ter falado isso do meu povo.  Eu sou brasileira, não gosto que falem mal de nós da maneira como tive que escutar. Mas o interessante é que na percepção do japonês ficou muito claro que os brasileiros que ele conhece aqui no Japão não estudaram e não estudam. Infelizmente a grande maioria dos brasileiros no universo das fábricas no Japão, deixaram os estudos de lado, ou começaram e desistiram, ou estudaram algo que não gostaram e optaram pelas fábricas japonesas nos dias de hoje ainda. A "bolsa mágica" do Japão é fantástica, é assim que muitos pensam.
Reflexão: Nessa parte do estudar, infelizmente muitos brasileiros atualmente no Japão consideram desnecessário estudar e sempre vão ter um bom argumento para justificar o "não estudar". Os argumentos são ótimos e super convincentes, eles são bem articulados em geral e falam: "temos que fazer "zanguio" não dá" (zanguio é hora extra, muitas vezes 4 horas extras por dia porque paga mais), "tenho que pagar a prestação da casa", "tenho que pagar as contas". Comprei tal coisa e estou pagando. A desculpa sempre são: o dinheiro e as contas. É essa desculpa que permite esse japonês falar o que falou e digo mais, muitos japoneses tem exatamente essa visão sobre os brasileiros, de que os brasileiros são burros. Já escutei outros japoneses falando isso nesses meus 10 meses de Japão.
É preciso entender que se hoje os descendentes de japoneses são bem vistos no Brasil e super inseridos na sociedade brasileira foi porque os descendentes aprenderam o português. Desconheço japoneses bem sucedidos no Brasil que não aprenderam o português. Então o que precisa para os brasileiros que optaram por ficar no Japão terem uma visão diferente para os japoneses? ESTUDAR O IDIOMA JAPONÊS. Sem dominar o japonês, infelizmente terei que concordar com muita dor no coração com a fala do japonês acima. É preciso colocar os japoneses no lugar deles no idioma deles, será que vocês me entendem? São 30 anos de história de brasileiros no Japão, será que vamos  ter que esperar 80 anos para os brasileiros entenderem isso?
Vamos ao próximo exemplo. Agora escrevo da minha poltrona do shinkansen saindo de Kagoshima e rumo a Tokyo. Não consegui reservar assento, mas por sorte como Kagoshima é a última estação consegui um lugar na janelinha! Adoro viajar na janela! Até chegar em Osaka eu espero publicar esse post, sigamos com os outros exemplos.
Exemplo dolorido 2: Eu nunca vou esquecer de duas frases que escutei aqui no Japão de amigos muito queridos que me ajudaram demais aqui:
Frase 1: "Iara, sabe o que eu mais queria aprender mesmo? Você não vai acreditar. Eu queria aprender o português!"
Frase 2: "Iara, eu passo em todas as provas de teste, mas não consigo escrever uma redação e passar na prova."
Reflexão: Essas duas frases me tocaram e me doeram demais, nunca vou esquecer disso. Fico até emocionada quando lembro! Tá vendo como a questão da sombra sempre vai esbarrar na linguagem e no modo de se expressar seja de maneira falada ou de maneira escrita. É muito dolorido ver pessoas queridas sem a sombra, sem estudo. Eles sentem uma tristeza por isso, é visível. Eles e muitos outros exemplos são parecidos, muitos que gostariam de ter estudado mas o trabalho nas fábricas não deixa essas pessoas terem sombra. A sombra ainda dá para recuperar porque nunca é tarde para voltar a estudar. Mas se insistirem na "bolsa mágica" por mais tempo, pode ser que a alma já tenha sido comprada pelas fábricas. Detalhe, eu fiz um intensivo de redação para a pessoa da frase 2 mas ainda não sabemos o resultado, mas independente do resultado foi uma alegria muito grande poder ajudar mesmo que em pouco tempo uma pessoa a escrever uma redação.

Exemplo 3: Uma jovem super inteligente, esforçada, dedicada falou assim nesses termos:
"Mas meus pais falaram que não vale a pena estudar. Eles estudaram faculdade e não deu certo, estão aqui nas fábricas trabalhando." Quase tive uma parada cardíaca quando escutei essa frase leitores, sério! É preciso muita calma nessa hora quando se adentra o universo das pessoas que estão iludidas pela "bolsa mágica" e quando é uma jovem com uma sombra linda, com uma inteligência escancarada falando isso, eu sinto que sofro um terremoto dentro de mim, balança tudo dentro de mim. Aí eu tenho que parar e esperar esse terremoto passar e aí eu perguntei:
"O que seus pais estudaram? Qual faculdade?" Essa jovem super inteligente  não sabia me responder essa pergunta simples. Provavelmente os pais não estudaram, não tem sombra, mas tem uma filha muito inteligente que até eles devem se assustar e para ofuscar o brilho dessa linda sombra, falam que não vale a pena estudar.
Reflexão:  Os brasileiros que tem filhos no Japão querem muito que eles estudem e muitos não desejam para seus filhos o trabalho nas fábricas. Mas é doloroso escutar de filhos, me contando, que os pais falaram que não valeria a pena estudar. Aí dói demais na minha alma. Quando eu vejo jovens deixando de estudar e trabalhando nas fábricas,  eu enxergo o Peter Schlemihl que não viu nenhum problema em vender sua sombra pela "bolsa mágica". A bolsa mágica no Japão permite que muitos jovens comprem moto, carro, celulares, computadores! É impressionante ver como eles conseguiram comprar tantas coisas, mas alguns até dizem: "mas vou juntar um dinheiro para voltar ao Brasil e estudar". Mas os anos vão se passando, vão se passando e acontece que  muitos vão assinar o documento que o Peter Schlemihl se recusou a assinar. Ele mesmo diz que espera que seu ensinamento  seja útil para alguns habitantes e diz: "Mas você, meu amigo, se deseja viver entre os homens, aprenda a respeitar em primeiro lugar a sombra (...) Mas, se quiser viver para si e para o que há de melhor em seu interior, então não precisa de nenhum conselho."
Em outras palavras o Peter Schlemihl está dizendo, se você continuar fechado no seu universo, você não precisa de nenhum conselho. Há um universo paralelo de brasileiros no Japão que não conseguem enxergar além do ambiente de fábrica, estão presos. Há os que saíram das fábricas fisicamente mas o ambiente das fábricas não saíram das pessoas e mesmo que trabalhem "com o ensino", por exemplo, reproduzem o mesmo ar das fábricas e esse ar eu pude respirar e vivenciar durante um certo tempo no Japão. Antes que esse ar pudesse me contaminar, vocês não fazem ideia o que é respirar esse ar, eu, eu mesma e minha sombra decidimos largar esse ambiente tóxico e partir para vivenciar outras experiências incríveis de educação que o Japão tem a oferecer, mas só quem tem sombra vai me compreender.
Observações:
1. Serei muito grata ao Japão e as pessoas que me convidaram para aprender como é essa realidade, esse foi o argumento que me convenceu a vir ao Japão. Eu realmente aprendi muito!
2. Os exemplos doloridos não acabaram e acho que até eu deixar esse livrinho tão inspirador no dia da minha partida, eu vou ficar falando da sombra e do Peter Schlemihl....hehehe
3. Obrigada se você leu todos esses posts, arigato!
4. No post anterior na placa em Beppu estava escrito "ao Beppu", consultei duas amigas, uma tradutora e uma linguista e assim como existe Bem-vindo ao Rio de Janeiro, pode ser que Beppu seja o equivalente ao Rio de Janeiro e por acaso a cidade e os morros me fizeram realmente me lembrar do Rio de Janeiro.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Ensaio sobre sombra e identidade de brasileiros no Japão III

Feliz 2019 diretamente de uma cidade que queria muito conhecer chamada Beppu que fica na província de Oita na ilha de Kyushu, sul do Japão. Aqui sigo minha aventura e aprendizado e nas horas vagas escrevendo aqui no blog esse ensaio.
Como se forma a sombra, ou seja, a identidade?
Escrevi no post anterior sobre a sombra  ser a identidade individual de cada um que é formada desde o nascimento.  A origem da constituição da sombra vem do nosso primeiro contato com os pais pela linguagem. Imagina a alegria dos pais quando os filhos começam a falar, se expressar, saber quando está bem, quando está mal, o que querem. É gracioso uma criança falando, a gente se encanta porque é lindo mesmo, a sombra está se formando. A linguagem por meio do idioma original é a principal constituição da sombra, da identidade de cada um. Mesmo quando as crianças não conjugam corretamente, trocam as letrinhas, o importante é exercitar o idioma da identidade original.
Sabe o que me deixa muito feliz sempre? Quando eu encontro uma placa como essa abaixo escrita em português e espanhol. Fico tão feliz de ver minha língua portuguesa e o espanhol alí na plaquinha, já gostei mais ainda de Beppu. Traduziram "ao Beppu" mas tudo bem, a intenção é a que vale! Ao menos os japoneses se esforçam para receber bem o outro nas suas mais diferentes "sombras", principalmente nos pontos turísticos.


Eu amo meu idioma, o português que herdei por ter nascido no Brasil e amo também o espanhol por ter tido um pai espanhol. Tudo isso para dizer que tanto o português quanto o espanhol fazem parte da minha sombra, da minha identidade. Geoiarinha tem uma sombra de origem e tenho um super orgulho disso! Não tem como eu arrancar isso ou alguém arrancar isso de mim e tenho o maior orgulho desses dois idiomas e desses dois países: Brasil e Espanha. Gostaria de falar melhor o espanhol, mas vou aprimorando aos poucos minha sombra. E o português é a língua que eu penso e me expresso todos os dias e que me permite escrever esse post também.
Onde é que estou querendo chegar? Essa introdução toda foi para tentar explicar como a sombra se forma. Agora vamos complicar porque temos que considerar que vivemos num mundo onde as pessoas migram em busca de melhores oportunidades. A "bolsa mágica" do Peter Schlemihl que sai dinheiro e realiza os desejos nem sembre está no país de origem, a "bolsa mágica" acaba levando muitas sombras a outros países.
Como proteger a sombra considerando que o indivíduo está fora do seu país de origem?
Imagine só como deve ter sido para os primeiros japoneses no Brasil em 1908? Que sofrimento migrar para um lugar em que eles não falavam português. Terrível!Agora pensa no inverso, nos primeiros brasileiros chegando aqui em 1988. Terrível também! O idioma é um dos pilares da constituição da sombra, da identidade. Estar em outro país com pessoas que tem sombra diferente da tua dá uma angústia muito grande.
Muitos japoneses foram enganados no Brasil e muitos brasileiros foram enganados no Japão e isso gera uma insatisfação muito grande. O sonho da "bolsa mágica" esbarra na questão do idioma sempre!
Se você que está lendo esse post, é brasileiro, tem descendência japonesa, ou se casou com descendente de japonês, mora no Japão, trabalha no Japão e fala japonês muito bem...omedetou para você, parabéns! Você tem sombra, você tem identidade. Eu sempre fico encantada de ver meus amigos brasileiros falando japonês, fico encantada mesmo! E se você continua estudando o português aplicado nos mais diversos níveis, ensino fundamental, médio, aula particular, ensino superior presencial ou a distância, especialização......parabéns também por proteger sua sombra de origem.
Resumindo, estudar é um dos meios para proteger a sombra, ou seja, sua identidade. Estudar inglês também vem se constituindo como uma característica bastante apreciável às sombras porque aí então você pode se comunicar com muitas outras sombras de outros países e tornar a sua sombra, a sua identidade mais forte e bonita. Eu adoro conhecer pessoas de países diversos que eu consigo me comunicar, eu aprendo tanto. Mas se eu não soubesse me expressar em outros idiomas, sem dúvida eu me sentiria péssima.
Mas eu sei que infelizmente tem muitos brasileiros que estão no Japão por muitos anos que NÃO sabem japonês e NÃO sabem o português, não estudam nem um e nem outro mas tem a "bolsa mágica" que sai dinheiro e compra tudo o que querem. Saber um pouco, o japonês das fábricas, isso não é saber japonês ou o japonês do "kore, iti". E saber português de escrever no facebook também não é saber português. ESTUDAR protege a sombra!
Puxa vida, "mas eu não tenho tempo", gente eu ficava muito arrasada de escutar pessoas já "sem sombra" dizendo isso. Há muitos que vivem o encantamento da bolsa mágica do Peter Schlemihl. Frases do tipo: "A vida aqui é assim, trabalhamos bastante e só descansamos para poder trabalhar mais." Mas o importante é que se compra muita coisa e se "vive bem" no Japão.  Tá vendo como é complexo para chegarmos a uma conclusão bastante óbvia e até clichê: dinheiro não compra felicidade. Tem muitos brasileiros felizes com as conquistas materiais e super orgulhosos mas lá no fundo é visível a tristeza. Quem acorda feliz e contente para fazer um trabalho repetitivo, pesado, que machuca, que deixa marcas por 12 horas durante 6 dias da semana, sim porque muitos trabalham de sábado. Eu super admiro essas pessoas, de verdade, é impressionante pra mim isso. Eu falo isso sempre para meus amigos, como vocês conseguem? Há muitos Peter Schlemihls no Japão que se encantaram num primeiro ano com a bolsa mágica e muitos não vão largar a "bolsa mágica" por nada nesse mundo. Fiquei arrasada de saber que um brasileiro que eu conheci recentemente se matou,  ele tinha a posse da sombra mas a alma dele era da fábrica, era do Japão.  Ele havia passado férias no Brasil e estava super contente de ter visitado o nosso país, mas tinha que voltar para onde ele trocou ter a sombra de volta concedendo a alma. A alma desse brasileiro ficou no Japão literalmente.
Como recuperar a sombra?
Alguma dúvida que eu vou escrever que ESTUDAR recupera a sombra. Os coreanos tem um status diferente aqui no Japão porque eles enfrentam os japoneses de igual para igual simplesmente porque os coreanos além de estudarem japonês, eles estudam inglês e se qualificaram nos estudos formais e alcançam postos de trabalho altos aqui. Quero deixar bem claro que você pode morar onde quiser, trabalhar onde quiser mas é bom proteger sua sombra, sua identidade: estude, se qualifique, lute no idioma da onde você está para que o certo seja realmente certo. Não aceite situações erradas impostas pelas empreiteiras ou pela empresa.
As pessoas "sem sombra", sem identidade, aceitam numa boa fazer coisas erradas no ambiente de fábrica ou da empresa, nos contratos de trabalho. As pessoas "sem sombra" não vêem nenhum problema em aceitar maracutaia porque tem maracutaia no Japão SIM. Eu senti na minha pele e fiquei bem assustada de saber que se faz maracutaia no Japão, mas essa é uma outra história! Que mal há em assinar um contrato que paga menos impostos e você "vai ganhar" mais. Muitos brasileiros que aceitam isso, não tem sombra. Se você não estuda, você tranquilamente aceita o errado e contribui para punir o certo. Mas se você tem sombra, tem identidade, você faz o que é certo e pune o errado. Por sorte eu tenho sombra, não me vendo por "bolsa mágica" nenhuma e nem fico vislumbrada com Japão como as pessoas sem sombra costumam  ficar. Uma característica bem marcante das pessoas "sem sombra" que está até numa pesquisa feita pelo consulado. Muitos brasileiros que venderam "sua sombra" pela bolsa mágica tem um padrão bem típico de falar muito, mas muito mal do Brasil. Tudo no Brasil é ruim, tudo é péssimo, nossa que lugar abominável de se viver. É preciso ter uma boa justificativa por ter aceito a "bolsa mágica" e esse é um padrão bem característico.
Sabe por que eu escrevo isso sem o menor medo de me criticarem? Primeiro porque eu tenho sombra, eu tenho identidade e me orgulho muito dela. Segundo porque eu conheci pessoas maravilhosas aqui no Japão que ajudam os brasileiros a recuperarem a sua sombra, a sua identidade! Quando você conversa com as pessoas com sombra aqui no Japão, eu percebo que o mundo não está totalmente perdido. Acho até que talvez tenha sido um dos maiores aprendizados que tive na minha vida vivendo aqui no Japão com brasileiros. E "A História maravilhosa de Peter Schlemihl" é realmente maravilhosa e super atual para a realidade que eu vivenciei. Vou deixar esse livrinho no Japão para essa minha amiga muito querida que ajuda brasileiros a recuperarem a sombra.

Em tempo, faltou eu explicar o Thomas John no post anterior que era para prestar atenção que eu falaria dele depois. Pois é, o Thomas John é o exemplo acima do brasileiro que morreu no Japão. O Peter Schlemihl perguntou ao sujeito do casaco de cinza se o Thomas John tinha assinado vender a alma, daí o homem do casaco cinza tira do bolso a alma do Thomas John. Quando o Peter Schlemihl vê a alma saindo do bolso, ele decide jogar a bolsa mágica fora e vai embora com o que sobrou da bolsa mágica e sai pelo mundo para ter outras experiências. O Peter Schlemihl não vendeu a alma, que lindo né.  Por isso eu falo muito para alguns amigos muito queridos que tenho aqui no Japão, se não está feliz aqui, "larga essa bolsa mágica" o quanto antes e vá viver em outro lugar ou voltar ao Brasil.

Espero que tenham gostado desse ensaio em três posts sobre a história maravilhosa de Peter Schlemihl e minha experiência no Japão. Vou trazer nos próximos posts alguns exemplos super interessantes que conheci aqui que valem muito a pena refletir. Gostei de voltar a escrever no blog e espero que tenham gostado dessas reflexões.

domingo, 30 de dezembro de 2018

Ensaio sobre sombra e identidade de brasileiros no Japão II

Bom, parece que as pessoas gostaram post 1. Sigo aqui na minha vida de trem bala que tanto gosto e refletindo, lendo e escrevendo.
Vamos recapitular, estou fazendo um ensaio, uma reflexão e comparação de um "livrinho", que foi sucesso no século XIX, com a minha experiência no Japão.  Não tenho nenhuma pretensão de explicar as escolhas individuais das pessoas do mundo, mas trago o aprendizado que tive com a convivência pessoal com brasileiros aqui no Japão e em contato com a sociedade japonesa.
Se tem algo que o século XIX colocou na roda da sociedade foi a questão da depressão e os desejos humanos. Uia, estamos no século XXI e essa história toda de depressão e da insatisfação humana começou no século XIX? Sim leitor! Começou até muito antes, mas as definições médicas começam no século XIX. Viva o século XIX ou não...hehehe!
Contei então de um cara chamado Peter Schlemihl que recebeu uma bolsa mágica que sempre sai dinheiro mas mesmo assim ele não estava feliz. Toda vez que o Sol se colocava, ele fugia para que as pessoas não percebessem que ele não tinha sombra.
Vamos falar agora do sujeito que ofereceu a bolsa mágica. No livro, há um personagem que aparece como o sujeito do casaco cinza com poderes fantásticos. Ele realiza o desejo das pessoas. Tudo o que as pessoas desejavam, o sujeito de cinza tirava do bolso e foi ele quem ofereceu a bolsa mágica que saia dinheiro ao Peter Schlemihl. As pessoas menosprezavam o sujeito do casaco cinza, mas ele concedia tudo.
Talvez o sujeito de cinza pudesse ser as empreiteiras ou até mesmo o Japão que oferecem propostas incríveis e maravilhosas aos brasileiros descendentes para trabalharem aqui. Muitos se decepcionam e depois de um tempo trocam de fábrica ou empreiteira...muda de situação mas de fato a insatisfação continua. Muitos brasileiros menosprezam, reclamam das condições de trabalho, mas estão lá firmes sofrendo diariamente e muitos sofrem silenciosamente. Depois trocam e quando tudo parece melhorar, ainda não estão satisfeitos. Faço uma observação de que tem também brasileiros que adoram trabalhar nas fábricas e se acharam no trabalho, se identificam e vestem a camisa a ponto de defender seu trabalho com uma "alegria" que impressiona, muitos não pelo trabalho em sí obviamente, mas sim pelo retorno financeiro. Coisas do tipo, o trabalho é pesado mas paga bem. Mas tem casos de pessoas que gostam mesmo do trabalho propriamente dito e isso é muito legal também.
Voltando ao livro, antes de seguir adiante preciso falar de um cara chamado Thomas John super influente e rico que aparece no começo do livro como o cara que numa festa super glamourosa e fantástica tinha como convidado o sujeito de cinza que concedia todos os desejos mais absurdos das pessoas, tirando simplesmente do bolso. Foi nessa festa que o Peter Schlemihl conheceu o sujeito de casaco cinza. Guardem essa informação do Thomas John....vou ter que falar dele mais para frente.
Aí o que acontece? Depois de um ano em que o Peter Schlemihl sofreu e se arrependeu de vender sua sombra, eis que o sujeito do casaco cinza reaparece do nada. Aí rolou aquela situação do Peter Schlemihl:
"Meu senhor, eu lhe vendi minha sombra pelo preço dessa bolsa, em si bastante apreciável, e arrependi-me suficientemente. Será que esse negócio pode voltar atrás em nome de Deus?
A resposta do caso de cinza foi: Claro, devolvo sua sombra, basta que você assine este documento. O documento dizia que o Peter Schlemihl cederia a alma depois da separação natural do corpo. Detalhe, o documento deveria ser assinado pelo próprio sangue do Peter Schlemihl. Ele teria a sombra dele se vendesse a alma ao homem de casaco de cinza que você pode entender quem é nessa fala em que Peter Schlemihl pergunta, afinal de contas quem é você?
O homem do casaco de cinza responde: "Sou um pobre diabo, ao mesmo tempo uma espécie de erudito e físico, que por suas artes exemplares só recebe ingratidão de seus amigos e que não tem nenhum outro prazer nesta terra além de suas pequenas experiências, mas assine aqui à direta, aqui embaixo, Peter Schlemihl"
O Peter Schlemihl achou esse negócio duvidoso, como assim ter a sombra de volta se vender a alma?Mas o homem do casaco de cinza tirou a sombra dele para que ele pudesse ver e a sombra obedecia o homem do casaco de cinza sempre, muito embora o dono de verdade fosse o Peter Schlemihl.
O Peter Schlemihl pensou, pensou, pensou, pensou e não queria assinar de jeito nenhum o documento que vendia sua alma para ter a sombra de volta e continuar sendo rico. Depois desse um ano, o homem do caso de cinza não ia desistir tão fácil e ficou importunando e mostrando a sombra dele ao Peter Schlemihl. Tem uma fala do homem do casaco de cinza muito boa: "Note bem Schlemihl, aquilo que a princípio a gente não quer fazer por bem, acaba por fim fazendo-o obrigado"
Pausa para a reflexão. Eu perdi as contas de quantos brasileiros disseram que ficaria por um ano no Japão, mas que foram ficando mais um ano, mais outro, mais outro. Recomeçar no Brasil....muito difícil, já se acostumou ao Japão e com as facilidades que a vida aqui oferece. Todos os desejos materiais de quem trabalha bastante aqui no Japão, se realizam. Carro, celular, computadores, viagens, parques temáticos e mais recentemente casas. Hoje muitos brasileiros compram casas no Japão com parcelas a juros baixos que se tornam mais vantagem que alugar.
Voltando ao livro, mas então o que seria a sombra?  A identidade de cada ser humano é a sombra. A identidade é construída em casa pelos pais, pelos amigos, nas escolas e pela sociedade também. O que somos, o que fazemos, como agimos...tudo isso aprendemos com pessoas.
A identidade do Peter Schlemihl não pertencia mais a ele, mas sim ao homem do casaco cinza que aceitava devolver a sombra se fosse concedida a alma. Mas o Peter Schlemihl não poderia ficar com a bolsa de dinheiro e ficar "de boa"? Não é tão simples assim. Ele tinha que tomar uma decisão, aceitar ou não assinar o documento que entrega a alma porque o homem do casaco de cinza insistia para que assinasse logo.
Aí o que acontece? A tentação era muito grande, era só assinar o documento e pronto, a sombra voltaria para o Peter Schlemihl e ele continuaria rico, MAS o Peter Schlemihl não assinou o documento!  O homem de casaco de cinza sempre iria aparecer todas as vezes que ele mexesse na bolsa mágica de dinheiro e ele não aguentava mais ser incomodado pelo sujeito. O que o Peter Schlemihl fez? Jogou a bolsa mágica fora e ficou sem sombra e sem dinheiro.
Guardada as devidas proporções, isso pode acontecer com brasileiros aqui no Japão. Eu conheço um caso de um descendente que foi trabalhar muitos anos no Japão e que voltou ao Brasil sem nada e se arrependeu amargamente de ter "perdido" o tempo da juventude dele nas fábricas. A sedução pelo dinheiro que vem de muitas horas de trabalho extenuante causa sequelas e traz tristeza a muitas pessoas pelo que observei aqui. Muitos jovens antes de completar 18 anos já podem trabalhar no Japão, conheci um jovem super inteligente e articulado que me contava da tristeza imensa e cansaço que ele sentia por fazer algo que ele de fato não queria mesmo sabendo que estava recebendo bem por isso. Ele teve que fazer tratamento psicológico porque ele não conseguia nem falar com as pessoas, queria se isolar. O Peter Schlemihl não podia encontrar pessoas, ele se sentia mal todas as vezes que as pessoas percebiam a ausência da sombra.
Tem muitos brasileiros que não tem tempo ao outro porque estão cansados e exaustos dos trabalhos que realizam. Falta de tempo e cansaço é super rotina na vida da maioria dos brasileiros no Japão.


Mas ainda não acabou esse post leitores porque vem outras questões para reflexão:
Como a sombra se forma?
Como proteger a sombra?
Como recuperar a sombra?
Em outras palavras:
Como a identidade se forma?
Como proteger a identidade?
Como recuperar a identidade?
Ainda não expliquei o Thomas John que eu falei que era para prestar atenção.
Complicou? Vai ter que ter o post 3.

sábado, 29 de dezembro de 2018

Ensaio sobre sombra e identidade de brasileiros no Japão I

Bom dia daqui do sakura shinkansen, alguns minutos atrás estava em Osaka e agora que comecei a escrever já estou em Kobe.  Hoje o tema é sombra e identidade motivada pela leitura e reflexão de um livro e sobre a minha experiência no Japão e as pessoas que aqui conheci.
Tudo começou quando fui apresentada ao livro "A história maravilhosa de Peter Schlemihl do Adelbert von Chamisso pelo professor Nicolau Sevcenko em 2003 quando fiz uma matéria chamada História Contemporânea na USP. Esse livro é uma novela fantástica e isso significa dizer que tem muitos elementos que não são reais mas nos convidam a reflexão real.
Imagine que você, caro leitor que está agora curioso para saber o que vou escrever, lhe é oferecido um bolsa da fortuna que sempre vai sair dinheiro. Você sempre terá dinheiro, sempre, vai poder comprar o que quiser. Você aceitaria? Mas tem uma condição, obviamente. Você sempre vai ter dinheiro e vai poder ter o que quiser MAS você só precisa vender a sua sombra, sim a sua sombra.
Sabe o que Peter Schlemihl respondeu? É a sombra que você quer? Negócio fechado! Problema resolvido, dinheiro sempre para poder comprar o que quiser. A pessoa que ofereceu a bolsa de dinheiro ao Peter Schlemihl logo começou a cortar a sombra dele e disse que voltaria depois de 1 ano para oferecer uma nova proposta.
Aí o Peter Schlemihl ficou super contente, sempre saia dinheiro da bolsa mágica. Você acha que ter dinheiro deixou ele feliz? Não demorou muito para as pessoas perceberem que o Peter Schlemihl não tinha sombra e todos zombavam dele perguntando: Oh, você não tem sombra, o que aconteceu com sua sombra? O Peter Schlemihl sempre esbanjava dinheiro mas toda vez que voltava para sua casa ele ficava triste porque todos os dias ele era apontado como a pessoa que não tem sombra.
Ele contrata um criado que aceitou trabalhar para um homem sem sombra e o criado muitas vezes andava junto dele para fazer sombra e as pessoas não perceberem que o Peter Schlemihl não tinha a sombra.
Até aqui o que eu quero dizer é que tem muitos brasileiros que vieram ao Japão motivados pelo salário bom e pelas condições que o país oferece de segurança e tranquilidade. Agora a pergunta, vocês acham que todos os brasileiros estão felizes aqui? Os brasileiros trabalham nas mais diversas condições e não pense vocês que todos acordam alegres, felizes e contentes todos os dias. Tem muitos brasileiros com depressão dos mais diferentes níveis e muitos que se suicidam.  Eu me deparei com muitos brasileiros infelizes tendo muitos bens materiais. Muitos com carro, celulares modernos, relógios, roupas de marca mas no fundo, no fundo, bem lá no fundo estão infelizes. As redes sociais mostram todos os bens e as conquistas de cada um e não tem nenhum problema nisso se a pessoa estivesse feliz. Muitos brasileiros estão felizes sim com as conquistas materiais mas parece que lá no fundo, bem lá no fundo falta alguma coisa.
Voltando ao Peter Schlemihl, ele se arrependeu amargamente de ter vendido a sombra e queria de todo modo recuperar a sombra novamente, mas o cara que comprou a sombra deu um recado pelo criado que voltaria depois de um ano para a nova proposta.

Leitores, estou chegando no meu destino em Hiroshima e terei que me preparar para descer. Logo esse post vai ter continuação.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Japão na vida de Geoiarinha!

Saudações da terra do Sol nascente! Escrevo direto uma estação de trem chamada Kibukawa. Hoje meu destino é Tsu com escala em Yokkaichi onde morei por 5 meses. Aqui tudo funciona perfeitinho ate certo ponto, hoje mesmo o motorista de ônibus errou o caminho! Sim leitores, os japoneses erram. O mais legal é que ele deu muita risada e parecia feliz. Acabei perdendo o horário do trem às 11:21 e terei que esperar 1h pelo próximo trem.
Acontece, o Japão não é perfeito, ainda bem!
1. Voltar a escrever no Geoiarinha
Acho que agora é um bom momento de voltar a escrever um pouco mais sobre essa experiência e aventura pelo Japão.
2. Meu amor pelo Japão
o Japão é um país que eu particularmente amo de paixão desde meus 7 anos de idade quando escutava as histórias de um nikkei amigo do meu pai quando ele morava em Suzuka. Coincide também o fato de morar 30 anos no bairro da Liberdade.
Bom, não tenho descendência japonesa alguma, tenho sangue amazônico-espanhol, mas me fascina o idioma japonês, a comida japonesa e os lugares do Japão. Esse fascínio me levou a conhecer o Japão 4 anos atrás de férias e já estava super feliz de ter conhecido a terra do Sol nascente.
Vim ao Japão com visto de 1 ano para trabalhar em escola brasileira que aliás eu nem fazia ideia de que haviam tantas escolas brasileiras. Conhecer jovens brasileiros e poder ensinar para eles na verdade foi um alegria imensa no qual eu aprendi muito mais do que ensinei.
Migrar via de regra não é fácil na minha opinião e sou admiradora incondicional das histórias de cada um dos brasileiros que me contaram e me contam a trajetória. Por coincidência também esse ano completou 30 anos da chegada dos primeiros brasileiros no Japão, aliás o amigo do meu pai era dessa primeira leva mas infelizmente ele já faleceu.
Agora exatamente estou me despedindo do Japão percorrendo alguns lugares e me preparando para levar ao Brasil um aprendizado que eu jamais pensei que pudesse ter.
Vou compartilhar aos poucos essa experiência! Até o próximo post.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Relato de uma corredora na sua primeira maratona! Rio 2016, o ano olímpico!

Esse dia sem dúvida será o mais inesquecível da minha vida, foi o dia que completei minha primeira maratona, a maratona do Rio de Janeiro! Acredito que todo corredor de rua um dia sonha com essa distância ou pelo menos tem um grande fascínio e respeito por essa distância.

Eu confesso que sempre achei loucura e muito absurdo correr 42.195 quilômetros, achava inclusive que jamais faria. Eu estava feliz com os meus 10K de muitos domingos no estilo "run just for fun" ou seja, sem grandes pretensões.

Como tudo aquilo que faz bem, a corrida foi me dando mais confiança e aos poucos comecei e desejei correr alguns quilômetros mais. Eu ficava super feliz quando fazia 12K, 13K até que decidi que correria minha primeira meia maratona, que não por acaso foi no Rio de Janeiro ano passado AGO-2015. Eu sou apaixonada por essa distância, acho que nessa quilometragem eu desenvolvi muito mais meu amor pela corrida e onde eu senti que poderia tentar uma maratona.

Uma dica muito interessante que li e que eu reproduzo aqui é, caso você queira fazer uma maratona, sem dúvida nenhuma, é importantíssimo ter completado pelo menos 4 provas de meia maratona e claro muitos treinos solos de meia maratona.

Uma coisa é você fazer uma prova de meia maratona, a energia contagiante te faz ir pra frente, outra coisa é você acordar um dia e falar: hoje meu treino é de meia maratona. Eu fiz a maioria dos meus longos sozinha, então pra mim era uma vitória pessoal quando eu sozinha conseguia cumprir minha planilha de treino.


Eu gosto muito de treinar de modo bem confortável, tento ajustar o máximo possível tudo, desde o top, a faixa no cabelo, a viseira, a bermuda, a regata, a meia e claro o tênis. Conforto é algo que tem que ser testado durante os treinos para quando for para a prova não ter nenhum tipo de problema e realmente não tive problemas nesse sentido.

Acredito também que não existe nenhum momento durante a preparação que eu me senti totalmente preparada, aliás eu sempre senti e ainda sinto que tenho que melhorar muuuuuuito. Todo dia de treino é um novo desafio e não importa o quanto você treina, a maratona é dolorida para todos, é uma distância respeitável e que te coloca numa situação de limite do tipo: ou você vai com dor, ou você desiste porque não soube lidar com a dor ou porque se lesionou. Tem dores que são suportáveis...claro que tem outras que não! Cada um deve saber seu limite de parar ou seguir em frente.

Por falar em dor, acredito que ninguém gosta de sentir dor, mas treinando para a maratona eu percebi o quanto É IMPORTANTE TREINAR E SENTIR DOR e saber dominá-la. Um mês antes da maratona no Rio eu fui para a Praia Grande fazer um treino longo de 30K. Eu vinha de um treino de meia maratona e uma prova de meia maratona seguida com intervalo de uma semana entre elas. Nesse dia nos 30K eu senti dor desde o primeiro quilômetro e eu falava para meu irmão que também treinou comigo que eu estava com dor e ele me dizia: "para de frescura, isso é normal." O fato é que eu corri os 30K com dor nas coxas, hora a dor vinha, hora passava e hoje eu vejo o quanto esse treino foi importantíssimo. Depois desse treino comecei a chorar, achando que não ia conseguir completar a maratona porque sofri demais. O engraçado é que minha mãe me esperava num banco na praia e quando eu cheguei, claro que muito além do horário combinado, ainda levei uma bronca.....rsrsrsrs

Tudo o que eu desejava depois desse treino era chegar no dia da prova sem dor no início e isso deu certo, veja a foto abaixo de um dos meus lugares favoritos no Rio. O dia estava lindo e não tão quente assim!

Um outro treino que simulou muito bem o que acontece na maratona foi fazer 3 semanas antes 2 treinos de 18K num mesmo dia. Esse treino me deu muita confiança porque é muito importante você treinar cansada. Sou grata ao Rafael que foi meu staff e me esperou completar os dois treinos. Sou grata aos ultramaratonistas Fábio e Roselaine que me falaram para fazer 2 treinos num mesmo dia. Nesse dia também tive a alegria de conhecer um maratonista sensacional, Silvio, que já correu 37 maratonas e eu estava lá feito criança escutando as milhares de dicas e histórias interessantes, tudo isso no meu intervalo entre os dois treinos.

Tudo isso para dizer que treinar para a maratona é sentir muito cansaço e mesmo assim você se sentir feliz por atingir as quilometragens planejadas durante os treinos.
Meus treinos foram muito abaixo do que seria o ideal e eu tenho plena consciência disso, mas a minha vontade de entrar no universo da maratona e sentir todas as quilometragens era meu combustível. Eu estava muito feliz e fui feliz em cada quilômetro percorrido durante a maratona. A triatleta Fernanda Keller já tinha me dito que eu seria muito feliz na minha primeira maratona, foi dito e feito! Todo o desafio que nos colocamos a fazer e cumprimos para nós mesmos é a maior conquista que podemos ter.
A semana da maratona, o coração bate a mil por hora, não consegui dormir direito e ainda por cima fiquei doente com inflamação nas cordas vocais e na garganta. Fiquei proibida de treinar na semana da maratona, uma semana antes eu tinha corrido 7K e me senti esquisita quando fui na médica e ela me disse que eu tinha que ficar em repouso para não virar uma pneumonia. 

Viajei ao Rio com duas amigas muito queridas, Andreia e Talita, as quais eu vou pentelhando e incentivando a correr e participar dessa grande festa que é a maratona. Independente da distância escolhida, o evento da corrida de rua, o ambiente por sí só é uma festa, e eu adoro esse ambiente!

O vídeo do percurso da maratona do Rio feito pela organização do evento foi sensacional, chorei várias vezes e fiquei estudando os pontos e as quilometragens e me vizualizava sempre conseguindo completar a prova. Eu sabia que era difícil mas sempre pensava, de um jeito ou de outro vou completar essa prova.

Escrevendo esse post, parece que eu vivi um sonho! Acordei 3h30 da manhã para tomar banho e me trocar para ir para a prova. No hostel onde eu estava tinha outros tantos corredores e formamos um grupo que foi para a parada do ônibus da maratona que nos levou para a largada no Pontal do Tim Maia no Recreio dos Bandeirantes. Eu pensava, nossa estou aqui mesmo na largada, eu vou partir para correr 42K. Na verdade parecia que eu ia correr qualquer outra prova de 10K ou 21K, a diferença é que eu não fazia ideia como me sentiria numa prova de 42K.

Dada a largada fui correndo muito bem e me sentindo bem escutando minhas músicas do meu iPod e observando e me observando no meio daquele monte de gente para sempre me lembrar desse momento. Tive um imprevisto no Km 8, coisas de mulher e no Km 15 tive que parar e ir ao banheiro onde perdi uns 15 a 20 minutos. Passei a meia maratona muito feliz e sem dor. Isso era um dos meus planos, passar a meia e estar com energia para dobrar a quilometragem. No Km23 começou a primeira subida onde fiz correndo bem lento, mas fiz correndo. Na vista do elevado do Joá eu comecei a chorar emocionada, meu amor pelo Rio de Janeiro é declarado de tal maneira que sempre me emociono. Passei do Km 25 ao 26 bem e muito confiante. No Km 28 surgiram as primeiras câimbras e um corredor me emprestou um gelol. Depois disso comecei a pegar gelo em todas as paradas de água e passar nas pernas. Passei o Km 30 bem, não senti o paredão que tanto falam.

No Km 36 ao 37 foi super difícil pois a câimbras começaram a aumentar mais e mais, ela vinha e depois melhorava e depois vinha novamente, parecia que ela queria mesmo correr comigo. No Km 40 as minhas pernas ficaram duras de uma vez, a ponto de ter que parar e esperar um pouco para voltar ao normal. Talvez no Km 40 foi meu paredão! Nesse momento eu escutava a música Fighter da Cristina Aguillera e pensava, vamos perninhas, falta pouco para acabar, não me abandone agora, não quero terminar andando. No Km 41 tive a surpresa de escutar: "Iarinhaaaaaa" da minha querida amiga trilheira Luciana que já tinha acompanhado o namorado maratonista e me esperava alí. Ela falava, falta 1 Km Iarinha, não para! (foto ao lado).O namorado dela dizia, vai embora, não para! Eu não sei o que aconteceu nesse momento, mas essas palavras de incentivo parece que foram cruciais, fiz meu último quilômetro sem câimbras, sem dor e super feliz. Quase na chegada, minhas amigas Andreia e Talita gritaram meu nome e me acompanharam do lado de fora da grade.

O fato é que cruzei o marcador dos 42K super feliz e saltando, peguei minha medalha e não estava entendendo o que acontecia alí. Eu só falava para minhas amigas, foi muito difícil, muito difícil e chorava.

Levei um tempo para entender e ainda hoje mesmo escrevendo aqui, acho que ainda vou levar esse aprendizado para o resto da minha vida. O autoconhecimento que tive de mim mesma foi incrível, nem eu sabia quem era aquela Iara correndo com dor. A Iara que corre 42K ainda é um desafio e lições que quero continuar aprendendo. Em nenhum momento senti ódio da corrida ou me perguntei o que estava fazendo alí, muito pelo contrário, eu pensava ...."preciso treinar mais", vou fazer mais isso, mais aquilo, já confabulando comigo mesma meus próximos treinos

Essa foto é da melhor empada de carne seca com o melhor chopp escuro do mundo no boteco Belmonte, que alegria comer essa iguaria pós maratona!
De todos os desafios e aventuras que já fiz, a maratona tem realmente um sabor diferente, uma poesia diferente, um astral diferente, uma energia diferente de absolutamente tudo que já fiz. Minha próxima maratona será aqui em São Paulo da Asics city marathon dia 31 de Julho. Eu sei que não deveria fazer uma tão próxima da outra, mas depois dessa vou me reestruturar e me planejar para o ano que vem. Uma maratona por ano acho que está bom, até os 40 anos ter feito umas 7 maratonas, uma por ano, vou ficar muito feliz!

Depois vou fazer provas de meia maratona que são uma delícia e onde eu tento puxar vários amigos. Meu foco vai ser esse, pentelhar meus amigos corredores para fazer meia maratona ou simplesmente "correr just for fun" sem quilometragem definida, apenas para se divertir com a  corrida! Isso eu adoro!

Iniciei meus primeiros passos na maratona num ano de Olimpíadas e isso também será inesquecível!