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sábado, 1 de abril de 2023

Ypokritís e Alazoneia

 Ypokritís e Alazoneia



No teatro grego,
Os atores gregos
usavam máscaras
de acordo com o papel
que representavam
numa peça teatral,
eram chamados de hipócritas
do grego ypokritís

É, então, alguém
que oculta a realidade
atrás de uma máscara
de aparência, pois
não é preciso ser,
mas sim parecer

O tempo foi passando,
muitas coisas mudaram
ao mesmo tempo que
muitas coisas permaneceram,
essa palavra grega virou substantivo
aplicado nas sociedades
que desenvolvem
neste exato instante
em seu cotidiano
a hipocrisia

E nesta geléia
de ideias adicionando do grego
a palavra alazoneia
mais conhecida como
soberba, pretensão e arrogância
vira uma mistura que não sacia

O ser humano
no seu desejo de ambição
deseja chamar a atenção
de outro ser humano,
numa sociedade de aparência,
que vicia, que alicia apenas
o seu próprio ego

mas onde está escrito
implícito ou explícito
quem determina
que alguém é melhor que o outro?
estaríamos fritos

O que faz alguém
se sentir melhor que o outro?
Porque ser você mesmo
já não deve ser fácil,
imagina se julgar
melhor que o outro?
difícil

Mas por que será que o outro
se incomoda com o meu ser?
nunca vou saber
porque eu só sei que nada sei
já dizia o sábio grego Sócrates

A dúvida pode ser
o caminho mais seguro
para o ser humano
que busca se conhecer
porque se Sócrates
nada sabia,
por que um ser humano
hipócrita com alazoneia
saberia?




Mais um poema de minha autoria para celebrar meus 2 anos de Peruíbe e 1 ano que venho compreendendo a palavra hipocrisia! Cada escolha, uma renúncia e com esse poema eu renuncio normalizar a hipocrisia alazoneia! 
Iara Rosa, São Paulo, 01 de Abril de 2023

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

Biblioteca: uma relação de amor, incentivo, superação e aprendizado

Resultado de imagem para biblioteca cidade de sao pauloEsse post me ocorreu porque eu troquei o layout do blog com vários livros ao fundo e eu amo livros, decidi escrever sobre bibliotecas e livros. A foto ao lado é a biblioteca cidade de São Paulo que fica no local onde antes era o presídio do Carandiru e hoje é esse lugar lindo ao lado do metrô. Há computadores, jogos, livros, revistas,  mesas, sofás e um acervo imenso. Essa biblioteca não deve absolutamente nada para nenhuma biblioteca que conheci em outros países. Essa e a biblioteca do Parque Vila Lobos são públicas e administradas pelo estado. Fácil de se cadastrar e acessar inclusive revistas internacionais.

Eu aprendi na minha escola pública municipal Duque de Caxias a frequentar uma biblioteca. Quase todos os meses íamos na biblioteca para escolher um livro ou escutar uma história e  fazer atividades de escrita. Eu adorava esses momentos. Vocês acreditam que um dia falaram de um concurso e iam escolher um texto da sala, o meu foi selecionado, mas não avançou muito nas outras fases. 

Lembro também de uma vez um texto meu ter sido selecionado para ser colocado na parede naquele papel bem enorme para todos da sala lerem, morri de vergonha. A vergonha era porque escrevi uma história de amor por um menino que eu achava lindo, ele se chamava Jefferson e estudava na sala do meu irmão. Na minha história, fizemos pic nic no Ibirapuera num domingo. Meu pai me levava para fazer pic nic no Ibirapuera e isso depois de muito tempo descobri que é bem paulistano. Na minha historinha obviamente não tinha meu pai...hehe Não lembro como foi a narrativa da minha história....mas quando vi enorme na parede colocado pela professora, achei super legal.

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Sim, estimular a leitura desde as séries iniciais é fundamental para o desenvolvimento de qualquer criança. As crianças precisam ler, escutar histórias, criar suas próprias histórias e o resultado disso tudo foi uma semente de amor que nasceu pela leitura.

No meu ensino médio, escola pública estadual Firmino de Proença os professores pediam trabalhos que tinham que ser pesquisados obrigatoriamente na biblioteca. Formar um grupo e organizar para ir um dia à tarde pós aula era um super acontecimento, envolvia pegar ônibus, metrô, chegar na biblioteca, pesquisar, tirar cópias, sentar nas mesinhas, discutir sobre o assunto e principalmente dar muita risada com minhas amigas de escola. Olha, uma sensação de liberdade e ao mesmo tempo de conforto.

Aí quando chegou na fase do cursinho, minha relação com a biblioteca foi definitivamente assumida. Foi na biblioteca do Centro Cultural Vergueiro que eu decidi que ia aprender e entender física. Eu sofri demais quando não passei na USP na minha primeira tentativa e física tinha sido meu ponto mais fraco. Eu peguei todos os livros de física e achei um que tinha as respostas, então eu resolvia e verificava se estava certo com todos os cálculos. Ter feito isso me deu uma segurança tão grande no meu aprendizado que até hoje quando decido entrar na biblioteca, eu só saio quando aprender o que eu me proponho a aprender.

Quando eu viajo e sem querer comento com alguém que não posso falar porque estou na biblioteca, algumas pessoas se assustam comigo e já escutei: "você está viajando e vai na biblioteca?" Parece até que sou um extraterrestre, mas eu nem ligo porque quem mais se beneficia com a leitura de livros da biblioteca, sou eu mesma e meus alunos que aprendem com o que eu aprendo. Algumas muitas vezes eu nem comento porque eu sei que muitas pessoas não entendem, mas sou viciada em bibliotecas.

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É muito triste escutar jovens pós graduandos dizer que não gosta de estudar numa biblioteca, essa fala me assusta bastante. Eu entendo que muita coisa tem na internet, mas o ambiente de biblioteca é único, enriquecedor e empodera aquele que senta e se propõe a aprender. Mas fico feliz quando por exemplo ano passado uma aluna minha quando passamos pela biblioteca Mário de Andrade, depois de uns dias ela veio me perguntar mais detalhes de como frequentar e onde ficava. As crianças e jovens aprendem com o exemplo e hábito, se forem estimulados, a relação com a biblioteca acontece, mas se os adultos não frequentarem, as crianças e jovens não vão se sentir atraídas naturalmente. O estímulo vem de nós adultos, da nossa prática e digo mais, é um passeio surpreendente com um custo zero e aprendizado máximo.

Então minha  sugestão é tire um dia para conhecer uma biblioteca da sua cidade ou que existe perto da sua casa seja em qual país você vive. Eu tenho certeza que você pode se surpreender com a possibilidade de se apropriar  de materiais que podem fazer você ver o mundo de uma outra forma.

Eu tenho algumas histórias pessoais engraçadas e desesperadoras que já vivenciei em bibliotecas em alguns lugares do mundo, nos próximos posts eu conto mais.

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Para que serve a educação? A resposta de um índio guarani


Resultado de imagem para indigenas desenhoVou seguir escrevendo sobre o aprendizado que venho tendo com os indígenas recentemente. Os povos indígenas do Brasil, na minha opiniã, tem ideias e concepções que são pouco disseminadas entre nós que vivemos na cidade .Mas é claro que Geoiarinha está aqui para ajudar nessa tarefa em entender melhor as ideias indígenas.
A pergunta do título do post foi dada por Carlos Papá, um pajé e cineasta da aldeia Guarani Mbya. Ele mesmo, numa palestra, fez essa pergunta e respondeu:
A EDUCAÇÃO SERVE PARA PROTEGER O SEU PRÓPRIO SER

Escrevi em letras garrafais e em negrito porque achei sensacional essa resposta, simples e direta. Segundo esse índio, os indígenas estão sempre buscando novas formas de entendimento e ele tem plena clareza que ele não sabe nada. Ele acredita que as gerações seguintes vão sempre conhecer mais que ele

Não são incríveis essas definições? Eu já escutei de pessoas adultas que trabalham muitas horas me perguntar se vale a pena estudar. Ter essa dúvida já é um sinal que as sinapses estão acontecendo no cérebro, ter dúvida é importante. O problema maior está em ter certeza, quando alguém tem a certeza que não vale a pena estudar, aí aconteceu a necrose das sinapses e nesse caso o ser pode ter morrido mesmo estando vivo. Ou então ter a certeza que só uma única e definitiva decisão, basta. Muita gente só enxerga apenas um único caminho.

Resultado de imagem para decisões desenhoA educação passa pelo estudar e isso não é a certeza de sucesso, de emprego bom, de salário alto, mas o teu cérebro vai fazer mais conexões e as relações que estabelecemos com as pessoas e com o mundo se ampliam. As decisões, quando se incorpora esse conceito de educação, tendem a ser mais assertivas, ou seja, a pessoa tende a ser mais confiante e mais segura de si. Ser mais confiante e mais seguro de si mesmo não é ter a certeza na forma binária de certo ou errado, mas tem muito mais a ver com a segurança da tomada de decisão sem sentimento de culpa.

Quantas vezes em muitas decisões da minha  vida eu escutei frases do tipo: "oh, mas você vai fazer tal coisa dessa maneira?" Eu costumo responder quando eu tenho muita clareza da situação, sim estou segura da minha decisão ou que não significa que eu tenha certeza. Estou longe de ser a pessoa mais segura do mundo nas minhas decisões, eu tenho dúvidas, eu me questiono, mas principalmente eu me permito escutar diferentes posicionamentos para pensar melhor sobre as decisões que aparecem na vida. E se por acaso eu tiver tomado uma decisão que não foi tão boa quanto eu esperava, tudo bem, sempre é possível consertar e recalcular a rota a ser seguida. Sabe aquela voz do google maps de quando você erra o caminho e ele fala: "recalculando", acho que é assim que eu me sinto sempre....recalculando sempre a minha rota.
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Por isso que eu acho que os índios são muito sábios e tem uma compreensão de mundo muito plural, dinâmica e simples. Os índios que estou conhecendo estão me surpreendendo com tamanha genialidade e simplicidade e na medida do possível vou trazendo aqui para reflexão.

domingo, 3 de novembro de 2019

É preciso sair da aldeia para conhecer a aldeia!

Eu estava no Japão na última vez que escrevi e desde que voltei ao Brasil, minha vida foi tão intensa com muitos compromissos acadêmicos e profissionais que fui abduzida pela retomada da minha rotina em São Paulo. Toda vez que entro na avenida 23 de Maio ou entro no metrô em São Paulo, sinto que voltei para a corrente sanguínea dessa megacidade. Uma das melhores sensações de voltar para casa é ver no bilhete de embarque e no painel do aeroporto as três letrinhas GRU, voltar para minha cidade, minha pequena aldeia, é e sempre será uma alegria imensa.

Depois de morar 1 ano no Japão, fiquei bastante reflexiva pensando e repensando sobre o Brasil e com certeza de ter tido um aprendizado no Japão que se tornou um divisor de águas na minha vida. O mais legal é que muitas pessoas aqui no Brasil quando me perguntavam como tinha sido a experiência no Japão, tinham a expectativa de que eu fosse falar mil maravilhas como se lá fosse o verdadeiro paraíso. Eu acabo decepcionando muito as pessoas sobre essa ilusão que vendem aqui de país desenvolvido, em especial obviamente sobre o Japão. Deixo bem claro o quanto eu amo o Japão e o quanto esse país me ensinou, mas digamos que meu amor amadureceu e agora tenho uma visão pautada em experiências que eu vivi e senti, boas e ruins. Os chineses são sábios em entender as relações de Yin e Yang, a nossa vida é assim.


Resultado de imagem para o invasor americanoHoje assistindo o documentário de 2015 do Michael Moore "O invasor americano" fiquei mais feliz de ver que existem pessoas que saem da sua aldeia para poder conhecer melhor a aldeia. Basicamente, o diretor visita diversos países atrás das melhores ideias para levar para os Estados Unidos porque esse país tem muitos problemas. Sobre o Japão, para sair do visão romântica é assistir "Assunto de família" de 2018 , filme japonês que ganhou prêmio ano passado.


Se não é possível conhecer todos os países in loco, uma maneira de fazê-lo é pela arte, pelo cinema. Há diversos filmes e desenhos disponíveis que permitem às pessoas ampliarem sua visão de mundo. O acesso a diversos filmes pelas diversas plataformas existentes hoje deveriam servir como um meio de acesso para a construção de esclarecimento,  discernimento,  crítica e portanto conhecimento.

Não é possível que em pleno século XXI ainda tenham pessoas com a mentalidade do período feudal. Eu definitivamente tenho muita dificuldade de entender pessoas que pensam de maneira tão retrógrada. Eu me pergunto sempre, para que serve ter um iPhone e internet de alta velocidade se você não consegue enxergar o óbvio da sua vida, do seu dia-a-dia? Qual o sentido que te motiva acordar cedo e trabalhar?

Resultado de imagem para ailton krenakMe empolguei em escrever esse post porque conheci recentemente Ailton Krenak, um índio e ativista da causa indígena com uma capacidade de discernimento, crítica e conhecimento impressionantes. Se vocês puderem assistir os vídeos dele no youtube, assistam. Foi ele que me influenciou para o título desse post. Um índio que conhece muito bem a sua própria aldeia, mas que devorou no sentido de adquirir conhecimento tudo o que está fora da aldeia. Na palestra dele, dentre tantas coisas, a que mais me chamou a atenção é ele dizer: "por que vocês tem tanta dificuldade em enxergar o óbvio?"


Resultado de imagem para interrogaçõesEssa pergunta é linda e aí eu penso sobre por que muitos brasileiros aceitam tantas coisas erradas no Japão? Por que muitos aceitam como normal a opressão, os xingamentos, os assédios? Por que os brasileiros se sentem tão inferiores no exterior? Por que o brasileiro odeia tanto seu próprio país? Por que o brasileiro, mesmo aqui no Brasil, não se enxerga enquanto ser humano que precisa de um mínimo de dignidade? Por que o brasileiro acha que só ter pensamento positivo, as coisas vão mudar na prática?


Eu posso sair da minha aldeia quantas vezes eu quiser, mas a aldeia nunca vai sair de mim. A esperança é que o conhecimento se construa para que seja possível se enxergar na aldeia e principalmente aprender o que há de bom e de ruim fora dela.

Precisamos voltar a sermos mais "humanos" e usar o que a evolução trouxe de melhor para a nossa espécie, nosso cérebro. Qualquer tentativa de manipulação que limitem a capacidade de pensar a complexidade da vida, das pessoas e dos países é uma afronta a evolução.

#conheçasualdeiaesejaglobal

domingo, 30 de dezembro de 2018

Ensaio sobre sombra e identidade de brasileiros no Japão II

Bom, parece que as pessoas gostaram post 1. Sigo aqui na minha vida de trem bala que tanto gosto e refletindo, lendo e escrevendo.
Vamos recapitular, estou fazendo um ensaio, uma reflexão e comparação de um "livrinho", que foi sucesso no século XIX, com a minha experiência no Japão.  Não tenho nenhuma pretensão de explicar as escolhas individuais das pessoas do mundo, mas trago o aprendizado que tive com a convivência pessoal com brasileiros aqui no Japão e em contato com a sociedade japonesa.
Se tem algo que o século XIX colocou na roda da sociedade foi a questão da depressão e os desejos humanos. Uia, estamos no século XXI e essa história toda de depressão e da insatisfação humana começou no século XIX? Sim leitor! Começou até muito antes, mas as definições médicas começam no século XIX. Viva o século XIX ou não...hehehe!
Contei então de um cara chamado Peter Schlemihl que recebeu uma bolsa mágica que sempre sai dinheiro mas mesmo assim ele não estava feliz. Toda vez que o Sol se colocava, ele fugia para que as pessoas não percebessem que ele não tinha sombra.
Vamos falar agora do sujeito que ofereceu a bolsa mágica. No livro, há um personagem que aparece como o sujeito do casaco cinza com poderes fantásticos. Ele realiza o desejo das pessoas. Tudo o que as pessoas desejavam, o sujeito de cinza tirava do bolso e foi ele quem ofereceu a bolsa mágica que saia dinheiro ao Peter Schlemihl. As pessoas menosprezavam o sujeito do casaco cinza, mas ele concedia tudo.
Talvez o sujeito de cinza pudesse ser as empreiteiras ou até mesmo o Japão que oferecem propostas incríveis e maravilhosas aos brasileiros descendentes para trabalharem aqui. Muitos se decepcionam e depois de um tempo trocam de fábrica ou empreiteira...muda de situação mas de fato a insatisfação continua. Muitos brasileiros menosprezam, reclamam das condições de trabalho, mas estão lá firmes sofrendo diariamente e muitos sofrem silenciosamente. Depois trocam e quando tudo parece melhorar, ainda não estão satisfeitos. Faço uma observação de que tem também brasileiros que adoram trabalhar nas fábricas e se acharam no trabalho, se identificam e vestem a camisa a ponto de defender seu trabalho com uma "alegria" que impressiona, muitos não pelo trabalho em sí obviamente, mas sim pelo retorno financeiro. Coisas do tipo, o trabalho é pesado mas paga bem. Mas tem casos de pessoas que gostam mesmo do trabalho propriamente dito e isso é muito legal também.
Voltando ao livro, antes de seguir adiante preciso falar de um cara chamado Thomas John super influente e rico que aparece no começo do livro como o cara que numa festa super glamourosa e fantástica tinha como convidado o sujeito de cinza que concedia todos os desejos mais absurdos das pessoas, tirando simplesmente do bolso. Foi nessa festa que o Peter Schlemihl conheceu o sujeito de casaco cinza. Guardem essa informação do Thomas John....vou ter que falar dele mais para frente.
Aí o que acontece? Depois de um ano em que o Peter Schlemihl sofreu e se arrependeu de vender sua sombra, eis que o sujeito do casaco cinza reaparece do nada. Aí rolou aquela situação do Peter Schlemihl:
"Meu senhor, eu lhe vendi minha sombra pelo preço dessa bolsa, em si bastante apreciável, e arrependi-me suficientemente. Será que esse negócio pode voltar atrás em nome de Deus?
A resposta do caso de cinza foi: Claro, devolvo sua sombra, basta que você assine este documento. O documento dizia que o Peter Schlemihl cederia a alma depois da separação natural do corpo. Detalhe, o documento deveria ser assinado pelo próprio sangue do Peter Schlemihl. Ele teria a sombra dele se vendesse a alma ao homem de casaco de cinza que você pode entender quem é nessa fala em que Peter Schlemihl pergunta, afinal de contas quem é você?
O homem do casaco de cinza responde: "Sou um pobre diabo, ao mesmo tempo uma espécie de erudito e físico, que por suas artes exemplares só recebe ingratidão de seus amigos e que não tem nenhum outro prazer nesta terra além de suas pequenas experiências, mas assine aqui à direta, aqui embaixo, Peter Schlemihl"
O Peter Schlemihl achou esse negócio duvidoso, como assim ter a sombra de volta se vender a alma?Mas o homem do casaco de cinza tirou a sombra dele para que ele pudesse ver e a sombra obedecia o homem do casaco de cinza sempre, muito embora o dono de verdade fosse o Peter Schlemihl.
O Peter Schlemihl pensou, pensou, pensou, pensou e não queria assinar de jeito nenhum o documento que vendia sua alma para ter a sombra de volta e continuar sendo rico. Depois desse um ano, o homem do caso de cinza não ia desistir tão fácil e ficou importunando e mostrando a sombra dele ao Peter Schlemihl. Tem uma fala do homem do casaco de cinza muito boa: "Note bem Schlemihl, aquilo que a princípio a gente não quer fazer por bem, acaba por fim fazendo-o obrigado"
Pausa para a reflexão. Eu perdi as contas de quantos brasileiros disseram que ficaria por um ano no Japão, mas que foram ficando mais um ano, mais outro, mais outro. Recomeçar no Brasil....muito difícil, já se acostumou ao Japão e com as facilidades que a vida aqui oferece. Todos os desejos materiais de quem trabalha bastante aqui no Japão, se realizam. Carro, celular, computadores, viagens, parques temáticos e mais recentemente casas. Hoje muitos brasileiros compram casas no Japão com parcelas a juros baixos que se tornam mais vantagem que alugar.
Voltando ao livro, mas então o que seria a sombra?  A identidade de cada ser humano é a sombra. A identidade é construída em casa pelos pais, pelos amigos, nas escolas e pela sociedade também. O que somos, o que fazemos, como agimos...tudo isso aprendemos com pessoas.
A identidade do Peter Schlemihl não pertencia mais a ele, mas sim ao homem do casaco cinza que aceitava devolver a sombra se fosse concedida a alma. Mas o Peter Schlemihl não poderia ficar com a bolsa de dinheiro e ficar "de boa"? Não é tão simples assim. Ele tinha que tomar uma decisão, aceitar ou não assinar o documento que entrega a alma porque o homem do casaco de cinza insistia para que assinasse logo.
Aí o que acontece? A tentação era muito grande, era só assinar o documento e pronto, a sombra voltaria para o Peter Schlemihl e ele continuaria rico, MAS o Peter Schlemihl não assinou o documento!  O homem de casaco de cinza sempre iria aparecer todas as vezes que ele mexesse na bolsa mágica de dinheiro e ele não aguentava mais ser incomodado pelo sujeito. O que o Peter Schlemihl fez? Jogou a bolsa mágica fora e ficou sem sombra e sem dinheiro.
Guardada as devidas proporções, isso pode acontecer com brasileiros aqui no Japão. Eu conheço um caso de um descendente que foi trabalhar muitos anos no Japão e que voltou ao Brasil sem nada e se arrependeu amargamente de ter "perdido" o tempo da juventude dele nas fábricas. A sedução pelo dinheiro que vem de muitas horas de trabalho extenuante causa sequelas e traz tristeza a muitas pessoas pelo que observei aqui. Muitos jovens antes de completar 18 anos já podem trabalhar no Japão, conheci um jovem super inteligente e articulado que me contava da tristeza imensa e cansaço que ele sentia por fazer algo que ele de fato não queria mesmo sabendo que estava recebendo bem por isso. Ele teve que fazer tratamento psicológico porque ele não conseguia nem falar com as pessoas, queria se isolar. O Peter Schlemihl não podia encontrar pessoas, ele se sentia mal todas as vezes que as pessoas percebiam a ausência da sombra.
Tem muitos brasileiros que não tem tempo ao outro porque estão cansados e exaustos dos trabalhos que realizam. Falta de tempo e cansaço é super rotina na vida da maioria dos brasileiros no Japão.


Mas ainda não acabou esse post leitores porque vem outras questões para reflexão:
Como a sombra se forma?
Como proteger a sombra?
Como recuperar a sombra?
Em outras palavras:
Como a identidade se forma?
Como proteger a identidade?
Como recuperar a identidade?
Ainda não expliquei o Thomas John que eu falei que era para prestar atenção.
Complicou? Vai ter que ter o post 3.